A gente se acostuma.

A gente se acostuma e, tantas vezes, nem percebe.

A gente aprendeu a adicionar pessoas e oficializar círculos de amizade em páginas na Internet. Mantemos uma presença digital através de ideias compartilhadas, conversas e curtidas. E também de bloqueios – evidentes ou velados.

Já estamos estabelecidos nessa era digital, acostumados, há mais de 10 anos. A ubiquidade dessa dinâmica se fortalece através do acesso móvel. Pesquisas que nos perguntam sobre quanto tempo passamos conectados não fazem mais sentido.

– Só quando estou dormindo, mas o 3G ainda fica ativo.


 

Black Mirror é uma série inglesa da Endemol e teve sua estreia em 2011. Foram 2 temporadas de 3 episódios cada e um especial de natal, que encerrou a temporada televisiva no final de 2014. Atualmente, é possível assistir à série na Netflix, que confirmou seu papel de salvar grandes programas que foram cancelados. O serviço de streaming garantiu que haverá uma 3ª temporada, de 12 episódios.

Cada episódio é um conto individual, dissertando sobre a relação do ser humano com a comunicação intermediada pelas tecnologias de informação e comunicação. São personagens se relacionando com outros através de novos dispositivos e mídias.

O trunfo de Black Mirror está em trazer à tona possíveis problemas da nossa dinâmica de hoje, através de hipérboles futuristas. A cada episódio, somos apresentados menos a um encanto tecnológico e mais a problemas morais e sociais que envolvem certas mudanças.

Black Mirror 15 Million Merits

A gente se acostumou com a fragilidade de relacionamentos ultramediados e um dos melhores plots da série gira em torno disso.

Uma das pinceladas futuristas mais interessantes é o chamado Grão: um pequeno chip que é inserido atrás da nossa orelha e permite que gravemos tudo que vimos durante as últimas 24 horas. Algumas memórias mais antigas podem ser salvas, mas, no geral, precisa ser feita alguma “limpeza” por conta do armazenamento.

Essas imagens podem ser acessadas facilmente através de um pequeno controle remoto que todo mundo que usa o grão tem (a maioria). Nossa memória é traiçoeira, mas a do grão não é. Através dele, temos acesso preciso a uma gravação das nossas vidas através do nosso olhar. É possível relembrar uma reunião que te deixou ansioso e analisar expressões; rememorar a última viagem de verão; o jeito que seu marido ou esposa falou com você ontem para argumentar melhor na briga.

“O trunfo de Black Mirror está em trazer à tona possíveis problemas da nossa dinâmica de hoje, através de hipérboles futuristas”

É incrível como essa tecnologia parece extremamente encantadora no início do segundo episódio da primeira temporada, The Entire History of You”. Aos poucos, o roteiro vai nos revelando um abismo imenso que acaba por revelar outros abismos. Através do grão, por exemplo, é possível bloquear uma pessoa. Afinal, ele está dentro do nosso cérebro e media o que vemos e salvamos em nossa memória. Ativando o bloqueio, simplesmente passamos a ver uma silhueta cinza e sem voz. Transformamos o outro em fantasma subjugado à indiferença formalizada pelo digital.

Longe da perfeição, Black Mirror escorrega (e feio) quando aumenta o peso moral da balança em seu roteiro. Em episódios como White BearThe Waldo Moment, a série fica claramente apressada em julgamentos e menos em reflexões que deixem para o espectador a conclusão. A direção é moderada e as atuações oscilam drasticamente, mesmo com a presença de atores relevantes como Jon Hamm (Mad Men), Hayley Atwell (Agent Carter) e Domhnall Gleeson (Star Wars: O Despertar da Força). Sua força, como fica evidente, está nas grandes histórias dos seus contos.

O ponto alto, sem dúvida, é o especial de natal White Christmas. Muito perto da estrutura de um filme que poderia ter vida além da série, o episódio é o mais rico em dilemas morais que sublinham novos aparatos tecnológicos. Através dele é possível discutir os rumos desta geração em temas como ansiedade, voyeurismo e justiça.

Assim, se a entender o passado é importante para não repetirmos os fracassos da nossa história, imaginar o futuro em Black Mirror serve, claramente, para nos preservarmos de erros básicos do presente.

 

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