Era o primeiro ou segundo semestre da faculdade de Direito e eu, sentado ao fundo da sala, seguia meu hábito desenvolvido durante a escola: desenhava. Um colega passa ao meu lado e comenta a frase que mais ouvi na vida: “- Tu devia cursar desenho!”

Pois é, devia.

Você também deveria parar o que está fazendo agora e correr pra aquilo que você ama; por que demoramos tanto?

1. Antes de tudo, sem glamour

Existe uma febre de glamourização do trabalho; ter uma profissão que nos satisfaça pessoalmente passou a ser, também, um status social.

“Nossa, olha pra ele! Tem um trabalho numa repartição pública!”

Buzzfeed, Google e praticamente toda empresa no ramo de tecnologia espalharam o mito de que todo o trabalho deveria se desenvolver num ambiente divertido, descolado e sem horários, apenas com metas a cumprir.

Lindo para algumas áreas, mas impraticável para quase a totalidade das outras profissões.

Essa verdade eu tinha em mente, trabalho é… trabalho. Ninguém é remunerado para se divertir.

Então, se sua motivação para mudar de área é trabalhar pouco e ganhar muito, repense. Talvez se especializar na sua área atual para agregar mais valor ao seu trabalho seja sua resposta.

Mas se mesmo um salário tentador não for o suficiente para aplacar o fato de que aquilo que você irá fazer, diariamente, pelo resta da sua vida, está esgotando mais do que seu físico – talvez seja a hora de uma boa dose de coragem, humildade e entender algumas outras verdades.

2. Ninguém é remunerado por sofrer

Pode parecer contraditório, mas não é. Não somos pagos (pelo patrão ou pelo mercado) para nos divertirmos, mas também não somos recompensados por sofrer.

Cultivei, por anos, esse sentimento de expiação premiada. Como se o universo trabalhasse em um sistema de compensação de karma.

Acordo cedo, abro mão de um final de semana, me privo de sair com os amigos numa sexta? Vou ser recompensado por meu esforço, invariavelmente.

A resposta triste e curta: não, não vai.

Se for pra abrir mão de algo, se sacrificar, sofrer… que seja com um propósito, um objetivo. Fora disso é pura perda de tempo, paciência e bem-estar.

Essa é, inclusive, uma cultura muito difundida e cultivada no meio cristão – evangélico ou católico. Há esse ranço de que Deus, por algum motivo sádico, se agrada em nosso sofrimento. Trocamos as chicotadas nas costas por horas extras.

“Talvez, se eu continuar fazendo isso que não me identifico mais, eu vá ser recompensado no futuro por esse meu sacrifício nobre

Há um grifo proposital na frase anterior, pois esse pensamento todo é permeado por uma boa dose de egocentrismo. O MEU sofrimento é especial… afinal de contas, sou EU quem está sofrendo! Olhe só Deus, Universo, Monstro do Espaguete VoadorEU estou sofrendo, me recompense!

Essa barganha é propaganda que ainda continua em alta aqui na terrinha. A grande sedução do cargo público e a (cada vez menos real) estabilidade.

Você irá trocar 4 ou 5 anos de estudo e sacrifício por uma vida inteira de tranquilidade financeira e profissional.

Novamente, a mesma resposta triste e curta: não, não vai.

3. O Filho Pródigo

Empreender, seja no sentido estrito (abrir uma empresa) ou numa perspectiva macro (se vender como profissional liberal ou um empregado que agrega valor), implica em sacrifício.

Abrir mão da minha OAB e de meu diploma em Direito, com suas inúmeras possibilidades de concursos públicos, para enveredar num ramo relativamente desconhecido no Brasil: ilustração e concept art trazia um risco que sempre estive consciente – e você, que leu até agora, talvez também esteja.

Eu sei que agora meu trabalho vai além da sexta-feira, implica em cultivar relacionamentos, desenhar constantemente, sempre me aprimorar, consumir o maior tipo de arte possível e estar em constante expansão.

Durante um bom tempo eu não quis essa responsabilidade; o que eu queria, o que talvez a maioria de nós queiramos é essa sensação de independência.

Para mim, como cristão, enveredar por esse caminho que agora estou implicava (e ainda implica) um compromisso maior com Deus. Eu queria uma independência completa: ser livre para, até mesmo, negar o Todo Poderoso.
Não que eu fosse fazê-lo, mas eu queria aquilo que eu julgava ser a segurança de poder negá-lo. De algum modo, eu queria me dedicar à Deus por conveniência e não por necessidade.

Se você não é cristão, talvez seja difícil de compreender esse sentimento de dependência do Divino, mas com certeza irá se identificar com essa vontade de controlar todos os aspectos de nossa vida.

Ironicamente, na parábola contada por Jesus, o Filho Pródigo acha que está independente do pai graças à uma pequena fortuna que ele herdou…do seu pai. Ou seja, não há como fugir do Criador, assim bem lembra o autor de Colossenses: E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.”

Para um não-cristão, essa verdade pode ser traduzida como: você não pode ser independente do mundo, por que você está inserido nele. Um bom empreendedor e/ou investidor irá lhe dizer que estabilidade não existe, é preciso sempre crescer para não regredir.

4. Aprendendo a surfar

Mas a verdade é que estabilidade existe, só que bem diferente do que estamos acostumados.

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;
Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.
Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
(Mt 6:19-21)

O que o texto bíblico traz, seja você crente ou não, é que nada aqui é estável. E  realmente não é; o cenário político atual do Brasil tratou de abalar essa crença – segue um exemplo bem aplicado ao tema:

“Servidores do RJ passam dificuldades sem saber quando ocorrerá o pagamento do salário de janeiro”
(15/03/2017)
Servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro passaram por aquilo que, teoricamente, lutaram para escapar quando escolheram a vida pública. E aqui, deixo claro, não existe demérito em seguir um ofício estatal – apenas que não é isso que irá lhe conferir a sensação de segurança.

É preciso entender que não estamos numa caminhada – essa analogia nos induz ao erro – pois não estamos sobre um solo plano e fixo, não escolhemos livremente se vamos para frente ou para trás.

Estamos num oceano; muitos de nós são jogados metros à frente sem o menor esforço, outros são puxados violentamente para trás, ou para baixo, ainda que gastando todas as suas energias em braçadas violentas. Enquanto alguns se afogam, outros boiam tranquilamente num mar sem ondas.

O que é realmente útil é saber surfar. Remar na hora certa e aproveitar aquela onda perfeita, mergulhar um pouco para escapar de um caldo e, quando o mar estiver parado, saber boiar e aproveitar a vista.

Paulo, o grande surfista das circunstâncias, já disse isso tudo de forma bem mais concisa: Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. (Fp. 4:12)

Isso não é apenas um conselho sobre Fé, mas sobre a vida.

Eu parei de remar contra a maré.
Parei de me cansar à toa, gastar todas as minhas energias em algo que claramente não estava me levando a lugar algum. Me esforcei durante 5 anos para permanecer exatamente no mesmo lugar.

Agora virei minha prancha e sigo o fluxo da maré. Enquanto não surge uma grande onda pra surfar, vou aproveitando a vista e ganhando fôlego.

Keep Moving.

 


Imagem final: Salebrena surfer

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