O Quarto de Jack, apóstolo Paulo e o Mito da Caverna de Platão

“Quando eu era pequeno, eu só conhecia coisas pequenas. Mas agora eu tenho 5 anos e conheço todas as coisas”, diz o menino Jack em um dos seus belos momentos de narrativa imaginativa e mítica. Se a fala se aproxima diretamente do texto paulino no final do capítulo 13 da carta aos Corintios, não é a toa: O Quarto de Jack é um filme sobre identidade, seu lugar no mundo e os ritos de descoberta.

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“Joy ensina Jack sobre a vida a partir dessa limitação física e rapidamente a narrativa nos aproxima de Platão e do mito da caverna”

 

Jack está preso em um quarto, acompanhado apenas da sua mãe (Joy), de uma televisão, alguns livros e uma claribóia. Fica claro aos poucos que se trata de uma espécie de cativeiro, mas não entendemos os motivos ao certo –  eles também não serão revelados aqui. Joy ensina Jack sobre a vida a partir dessa limitação física e rapidamente a narrativa nos aproxima de Platão e do mito da caverna. Sua alegoria é usada de forma bastante direta até certa altura do roteiro, quando a mãe começa a explicar ao menino sobre “o mundo lá fora”.

É cativante perceber como a ideia da caverna foi construída em torno de uma figura inocente – especialmente nas condições reveladas aos poucos no filme. A riqueza maior, entretanto, está no modo como o filme nos apresenta a visão de Jack sobre o que aprendeu. Sem necessariamente justificar o contexto, O Quarto de Jack usa esporadicamente uma voz-off do menino falando sobre como entende o mundo. A linguagem nesse momento é infantil, abstrata, mítica, passeando rapidamente entre o piegas, mas inevitavelmente tocante.

Para fazer tudo isso funcionar, um dos recursos mais interessantes é trazer toda a história sobre na perspectiva de Jack. Nunca estamos distantes dele no filme e onde ele não está a câmera também não estará. Esse rigor permite que sempre percebamos as cenas, os humores, os sentimentos através da sua mente e isso certamente é o ponto mais rico da obra.

Seu principal ponto crítico, sem dúvida, está em não aprofundar o suficiente os coadjuvantes do filme, de modo que temos várias vezes a sensação de pontas soltas na narrativa. A câmera do diretor Lenny Abrahamson (Frank) acerta menos quando tenta fazer planos ‘elaborados’ tentando mostrar a solidão dos dois e bem mais quando dirige os atores em torno de planos e contra-planos de ação e reação em momentos de descoberta.

Sendo um filme de novos olhares sobre o mundo, O Quarto de Jack se desdobra de forma inusitada em torno da revelação do que realmente é a vida para o protagonista. Jack percebe que o mundo é uma correria, uma avalanche de conflitos, germes e as coisas “acontecem, acontecem e nunca param”. Para ele, a descoberta sobre a verdade nas sombras da caverna (“você quer que eu feche a porta?”); pra gente, um novo olhar, desperto, sobre o mundo que nos deixou acostumados a percebe-lo sempre da mesma forma. Tal qual Paulo, que termina o capítulo 13 de Coríntios dizendo que, apesar de não ver mais as coisas como menino ainda tem muito que entender, Jack percebe que não sabe tudo e o entendimento sobre o mundo está apenas começando.


 

PS.: Geralmente, adicionamos ao final de reviews de filmes e séries o trailer para ajudar a compreender um pouco melhor, rememorar ou incentivar o espectador. No caso de O Quarto de Jack, sugiro que você assista ao filme sem ver o trailer ou mesmo ler sinopse. Foi assim que fiz e agora, ao assistir ao trailer, percebo como muito do que eu considerava que seria um mistério importante, não é usado na campanha de divulgação do filme. Fica a sugestão.

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