A não ser que você tenha acabado de começar sua jornada, não há um artista ou criativo sequer que não tenha passado por momentos “sem inspiração”. Para alguns isso se resolve cavando novas referências, vivendo novos momentos e trabalhando, trabalhando muito. [Em evento recente, o famoso quadrinista brasileiro Mike Deodato disse que quando lhe falta inspiração ele olha para suas contas pendentes]. A jornada de outros, no entanto, pode ter frutos diferentes, como a crise de identidade vivida pelo personagem David Smith, na graphic novel O Escultor (Jupati Books, 2015) de Scott McLoud.

Smith é um escultor profissional que na infância sonhava em ter superpoderes. O desejo de criança era poder moldar coisas como quisesse – ser um “Super Escultor”. A lembrança volta à tona em sua vida adulta (sem conseguir criar e quebrado financeiramente) durante uma conversa com seu tio-avô Harry, que aparece inesperadamente depois do morto. “O que você faria pela arte, David?”, pergunta o tio. David responde que daria a vida. E assim, consegue seus superpoderes, mas com a condição de que só vai viver mais 200 dias.

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Essa introdução, com claro subtexto referencial à gênese de super heróis, desemboca em uma jornada um tanto diferente. Com destreza na arte sequencial, Scott McLoud narra a história de alguém com grandes poderes, mas sua preocupação não são as responsabilidades com o mundo. O drama que o cerca é que habilidade técnica, por si só, não é mais objeto de admiração da classe artística ou da crítica. Espera-se de David uma “profundidade” que ele não alcança, mesmo que faça coisas exuberantes com seu poder. Taxado de “sem foco”, Smith se vê em face a uma crise criativa dentro da possibilidade de alcançar o que quiser com qualquer material.

sculptor-1Aos poucos, fica evidente que O Escultor nos mostra que, sem essência, um artista pode ter poderes divinos em mãos e nada a dizer.

McLoud é um consagrado autor de livros de quadrinhos sobre como fazer quadrinhos. Se o autor já deixou claro que Smith não é seu alter-ego, o subtexto da HQ parece ser, em alguma esfera, uma reflexão sobre sua própria obra e a luta entre método e arte.

Em O Escultor, o autor demonstra incrível habilidade na 9ª arte e fica evidente que seu discurso sobre estar interessado em experimentar a linguagem se evidencia em várias páginas. Ainda que o roteiro escorregue rotineiramente em diálogos um tanto piegas, McLoud demonstra que não está aqui apenas para ensinar a fazer quadrinhos. E, definitivamente, não está em crise criativa.


escultorO ESCULTOR
Scott McLoud

Para quem gosta de: Retalhos (Craig Thompson), Daytripper (Fábio Moon e Gabriel Bá)

496 páginas, R$ 89
Jabuti Books (selo da Marsupial Editora)

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