À minha esquerda bradavam “é golpe!”, a minha direita gritavam “o golpe é deles”.

O golpe já tinha me acertado e meu algoz não estava cansado. Veja, não sou vítima. Parte das porradas que levo nessa surra vem da minha própria indiferença. Eu não me deixei levar por ideologias porque nenhuma delas me convenceu o suficiente. Minha ética é outra e deu no que deu – estou aqui apanhando.

Se a insatisfação que tantas vezes me tomou não me transformou em agente de mudança foi porque também me identifiquei. A identificação à esquerda ou direita me dizia tão pouco ou quase nada. Golpista!

Devem achar que eu sou o golpe do golpe. O anti-golpe que está tentando derrubar tudo isso que está aí. “Afinal, precisamos dessa polarização”. Ela forma a democracia, dizem eles, enquanto  eu levava mais um tapa.

Todo dia apanho um pouco mais. Apanho de Cunha, de Wyllis, de Underwood, de Dilma, Malafaia e toda essa ficção. Deve ser tudo mentirinha, afinal. Ah, não é? Vixe…

E chegaram a dizer que agora há uma esquerda evangélica. “Comunistas infiltrados. Marxistas safados”. E há quem realmente defenda esse segmento. Uma polarização dentro dos remanescentes baseada na lógica polarizada das ideologias mais chatas. Parece piada, mas é só hype. Don’t believe the hype, cara pálida.

 

 

 

Foi quando me dei conta de que estava claramente apanhando dos que diziam também seguir o Messias. Diziam eles, diante de mim, que o mundo está corrompido e precisamos bradar contra tudo que está aí.

Não entendi. Um gritava: É golpe! O outro também.

Um dizia com classe acadêmica, o outro com a rispidez de um ignorante. Diziam a mesma coisa e brigavam entre si. Não entendi. Golpista! – eles dizem. A culpa é da sua indiferença! – eles dizem. Você que não faz nada!

Eles dizem muito.

E chegaram a dizer que agora há uma esquerda evangélica. “Comunistas infiltrados. Marxistas safados”. E há quem realmente defenda esse segmento, mas noutro esquema. Uma polarização dentro dos remanescentes baseada na lógica polarizada das ideologias mais chatas. Parece piada, mas é só hype. Don’t believe the hype, cara pálida.

E dia desses um pastor conhecido por seus protestos contra violência foi ameaçado anonimamente na Internet. Investigaram e deu no IP de um irmão da igreja, amigo de uns PMs. É golpe, digo eu. É golpe. Golpe baixo, claro.

O golpe continuava a me acertar e meu algoz não estava cansado. Olhei pra cima e o rosto que estava indefinido começava a tomar forma. Era eu ali, gritando “é golpe!” e batendo na minha própria cara, já sangrando.

Golpista, eu dizia a mim mesmo.

Minha rasteira era no meu próprio país. Aquele de dentro. Aquele que eu ousei dizer que governava com os sermões do Messias. A minha rasteira me fez, na verdade, dizer “não” para tudo isso que está aí.

Foi quando percebi que estava ouvindo tudo errado. Meu ouvido estava sujo de sangue, meus olhos já coagulavam.

Cansado dos golpes, não me levantei. Agora, só sobrava me arrastar.

Sim, era eu ali. Mas não era “é golpe” que eu gritava.

“Levante e ande”, eu entendi.