A primeira coisa que deveria chamar atenção a um futuro espectador do filme “Noé” é a curiosa escolha do seu diretor. Quem conhece minimamente a obra de Darren Aronofsky sabe que ele não é o nome mais esperado para um épico bíblico. “Exodus”, por exemplo, tem uma escolha mais “óbvia”: Ridley Scott, conhecido por filmes de grande porte e histórias pomposas. Aronofsky, novaiorquino de 45 aos, dirigiu obras como Cisne Negro, Réquiem para um Sonho e O Lutador.

Gastando mais tempo investigando o cinema de “Noé” e menos sua teologia, não será difícil perceber que, no fim da contagem das aves na arca, o filme é muito mais coerente em seu contexto autoral do que se imagina. Noé, o personagem de Aronofsky, inspirado na história judáica (é preciso deixar claro), pode rimar muito pouco com a narrativa bíblica tradicional mas faz todo sentido com o cinema do seu narrador.

As narrativas de Aronofsky, sempre nos apresentando um cinema de intensidade, de volume máximo, de frieza fotográfica rigorosa, sempre granulada, aqui faz pequenas concessões, mas não abre mão do principal elemento autoral: personagens obstinados.

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“Aronofsky sempre apresenta esses limites como o momento de transformação da nossa humanidade em monstruosidade”

Robin Ramzinski (Mickey Rourke) ou Nina Sayers (Natalie Portman), personagens de O Lutador e Cisne Negro, são primos diretos da linhagem de Noé (Russel Crowe). Gente de narrativas intensas, de buscas incansáveis. O cinquentão lutador de wrestling que sobrevive de algo fora de moda; a bailarina que ensaia ao extremo para alcançar a perfeição cobrada pelo diretor do espetáculo; o descendente de Adão que insiste em obedecer a voz divina em planos bizarros. Queira você ver apenas a beleza do arco-íris da história bíblica, a história de Noé é sim pra lá de estranha. Ninguém é convidado todo dia para construir um navio porque o mundo vai acabar – tosquice pouco observada no filme, por sinal.

Nossos personagens são outsiders, loucos, à margem. Noé anda pelos campos e vales áridos para encontrar respostas. À medida que as encontra, junto a outras perguntas, é cada vez mais determinado a alcançar seus objetivos: construir uma arca, ser agente do julgamento celestial que fulminará a humanidade.

Humanidade, por sinal, é condição importante do cinema de Aronofsky ser convincente como é. Em Cisne Negro ou O Lutador nenhum incansável é super-herói. A persistência vive seus limites: físicos como do nosso lutador, psicológicos como da bailarina, relacionais como de Noé. Em todos os casos, Aronofsky sempre apresenta esses limites como o momento de transformação da nossa humanidade em monstruosidade. É em Cisne Negro onde isso é mais evidente, considerando o modo como a personagem de Portman começa a se enxergar diante do espelho, além das transformações (meta)físicas que surgem.

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“Na narrativa de Aronosfky, Noé é um humano se deixando dominar pelos extremos internos, perdido nas relações pessoais”

Mais comportado esteticamente (3D não é liberdade estética), mas não narrativamente, Aronosfky constrói esse processo de “monstrificação” em Noé a partir do seu desejo rigoroso de seguir o que acredita. Os sonhos do nosso personagem obstinado revelam apenas a punição e não a graça. Certo de que precisa seguir à risca o que acredita ser o certo, Noé segue o passo a passo dos extremos, da insistência, até encontrar a própria falência da sua humanidade. Quando reconta para sua família a narrativa de Gênesis 1 e 2 (quando Aronofsky praticamente resolve a briga entre criacionismo e evolucionismo), Noé está começando a ter consciência desta condição.

À certa altura do filme, nosso personagem passa a ser retratado como monstro perdido em suas decisões. De agente de esperança, se transforma em catalisador do medo e, assim, fica cego. Na narrativa de Aronosfky, Noé é um humano se deixando dominar pelos extremos internos e, portanto, perdido nas relações pessoais. Assim, no filme não há um Deus sem misericórdia ou que não responde, mas um Noé que se afoga antes dos homens por quem ele desenvolveu ódio – e não graça. Em seu sonho sobre o dilúvio, ele está se afogando com todos, mas ainda não chegou à superfície.

Reflexo direto do que muitas vezes somos, Noé faz escolhas, se perde em persistências e se arrepende ao perceber que deixou as escamas do seu próprio mundo o cegarem. Símbolo pertinente para o que parece ser o povo judáico-cristão diante desta excelente narrativa: atento ao que importa menos, cego ao que deveria dar mais atenção. A história, bíblica ou de Aronofsky, perde a briga para a cegueira da religiosidade.


NOÉ

Direção: Darren Aronosfsky


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Ricardo Oliveira
é jornalista, mestre em comunicação, nerd, blogueiro no Diversitá e megalomaníaco por produção de conteúdo. Tenta filmar seu primeiro curta de ficção e nas “horas vagas” edita o *catavento.

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