Eu nasci em lar cristão. Fui à escolinha, salinha e ao culto, mas só a partir dos 18 anos que comecei a me envolver seriamente em uma comunidade. Ironicamente (ou não), esperei a plena capacidade civil para me tornar membro de fato de uma igreja, ou seja, ninguém mais tem culpa nisso – risos -.

Até meus 17 anos meu relacionamento com igrejas era relativamente distante: ia ao culto nos domingos, cumprimentava pessoas de modo superficial e voltava aos estudos, videogame e amigos. Eis que, 10 anos depois, meus dias estavam repletos de acampamentos, trabalho em ministério, liderança, vigílias, grupos pequenos, etc. Minha relação com a igreja… voltou a ser a mesma.

Claro, de modo algum quero incluir nisso minha espiritualidade, essa me acompanha desde que nasci. E, infelizmente, como é regra em todo cristão ocidental, ela sempre teve seus altos e baixos independente do meu CEP eclesiástico. O papo aqui é, como já dito, sobre 10 anos de igreja (os “i”s serão minúsculos e maiúsculos propositalmente, então atenção).

Eu vi um grupo que se reunia aos domingos com cerca de 100 pessoas crescer a ponto de se tornar uma MegaChurchPresenciei o nascimento de um projeto que mudou, e continua mudando, a vida de milhares de pessoas. Testemunhei pessoas agindo com mau-caratismo e sendo respondidas com o mais puro amor cristão, que somente uma liderança realmente centrada em Cristo poderia oferecer.

Mas eu também lembro de meus dias no começo dessa jornada, quando um amigo – bem próximo à época – começou a se “desviar”. Fui à casa dele, disse que estava lá para o que ele precisasse, e desde então me refiro à ele apenas no passado.
A verdade é que eu não estava lá para o que ele precisasse. Ele queria alguém pra sentar e tomar uma cerveja junto, ir à um show, passear de carro, enfim, um amigo. E eu só queria que ele voltasse pra igreja.

Vi mais gente também despencando das bordas de uma igreja em franca expansão e, enquanto eu os olhava cair no limbo do esquecimento, nunca estendi uma mão. Eles estavam se desligando da igreja, e eu achando que eles estavam deixando a Igreja. Só me cabia unir-me ao coro dos que olhavam e balançavam a cabeça dizendo: – desigrejado.

O nome tem se tornado frequente, sandro Baggio os chama de “pós-evangélicos”, a Flannel dispõe um documentário sobre esse “fenômeno” intitulado “You Lost Me” (Você me perdeu) e você provavelmente conhece alguém que deixou uma igreja evangélica – ou então essa pessoa é você mesmo.

Em nenhum momento pensei em abandonar a Igreja, mas sim a minha igreja. Eu tinha (e tenho) muitos conflitos em relação à inúmeras questões, mas sempre que tais pensamentos recorriam à mente, ao mesmo tempo vinha um trecho de C.S. Lewis:

Uma vez me perguntam: ‘É necessário frequentar um culto ou ser membro de uma comunidade cristã para um modo cristão de vida?’
(…)
Se há qualquer coisa no ensinamento do Novo Testamento que é na natureza de mandamento, é que você é obrigado a participar do Sacramento e você não pode fazer isso sem ir à igreja. Eu não gostava muito dos seus hinos, os quais eu considerava poemas de quinta categoria com música de sexta categoria. Mas à medida em que eu ia eu vi o grande mérito disso. Eu me vi diante de pessoas diferentes de aparência e educação diferentes, e meu conceito gradualmente começou a se desfazer. Eu percebi que os hinos (os quais eram apenas música de sexta categoria) eram, no entanto, cantados com tamanha devoção e entrega por um velho santo calçando botas de borracha no banco ao lado, e então você percebe que você não está apto sequer para limpar aquelas botas. Isso o liberta de seu conceito solitário.’

– C. S. Lewis, God in the Dock, páginas 61,62

Por isso eu sustento, e continuarei sustentando, que toda a noção por trás dos “desigrejados” é anti-cristã e não há nada que justifique um cristão sem igreja – até por que sequer pode existir um. Entretanto, existe uma espécie de culpa recíproca nessa questão toda, mas que pouca gente parece ouvir justamente pelo fato da maioria das críticas virem dos que estão “de fora”.

Com o passar do tempo, fui me dando conta do quanto estava só no meio da congregação. Não havia ninguém para ir ao cinema ou simplesmente sair para jogar conversa fora. Haviam só reuniões de ministério, cultos e saídas após o culto. Mas eu queria mais, eu já estava cansado de ser um agente eclesiástico cercado por colegas de trabalho, eu queria amigos.

Paralelamente, minha salvação vinha de fora da igreja – risos -, através de um grupo de amigos da universidade que vinha se solidificando cada vez mais.

Enquanto na igreja todos partiam – e partem – do pressuposto que você tem que querer estar ali e, numa postura extremamente utilitarista (provavelmente inconsciente) me perguntavam: “- mas você tá trazendo eles para igreja? Ou eles estão te tirando dela? Cuidado nessas amizades do mundo!”

Meus amigos do HTPN (Holy Thursday’s Poker Night – Noites Sagradas do Poker na Quinta – mais risos) não queriam me levar ou me tirar de lugar algum, queriam apenas conversar, trocar ideias, rir uns dos outros, ser meus amigos, e faziam por onde.

E foi nesse ritmo que há uns 3 anos eu me distanciei gradativamente da igreja, até chegar ao ponto em que me encontro: um “domingueiro”.


you lost me

Mas meu maior choque veio recentemente. Eu sabia da parcela de culpa que me cabia, do distanciamento que havia partido de mim, então resolvi voltar a me aproximar; mais vivido, mais maduro, menos ressentido.

Só que tem sido uma tarefa mais difícil do que imaginei, e isso me fez refletir. Não por que encontrei portas fechadas (elas estão super abertas), mas justamente por serem portas.

Hoje eu tenho amigos que não estão inseridos na minha igreja, outros que não estão inseridos em igreja alguma, uma família extremamente ativa e participativa, ou seja, sendo bem duro: uma vida comum.

Dentro da minha igreja, e de várias outras eu tenho certeza, existem várias pessoas me chamando pra dentro. E nesse aspecto eu os enxergo como a igreja primitiva, enclausurados dentro da própria caverna, se fechando em programações e reuniões, como que evitando ao máximo o contato com “o mundo”. A diferença é que os leões são apenas sombras dos próprios medos e receios, talvez essa caverna seja a mesma do mito.

O mais triste é que parece que nesses 10 anos a maioria dos meus vínculos não foram com as pessoas, mas sim com a igreja. É como se a igreja fosse um intermediário em todos os relacionamentos que se montaram ali dentro. Eu preciso abraçar a igreja por inteiro, antes de alcançar os que fazem a Igreja.

Tenho que fazer Escola Bíblica, entrar em um grupo pequeno e participar de reuniões da liderança para ao menos conseguir vê-los com uma certa frequência. Não é uma imposição, uma separação volitiva, mas um distanciamento.

Nesses 10 anos de igreja, aprendi muito dos dois lados: dentro eu percebi que meu ego é algo que precisa ser constantemente limado; a exercitar níveis maiores de tolerância e compaixão e a suportar os outros, assim como eu almejo ser tolerado. Já fora, eu vi que antes da teologia, da exegese, dos louvores, muitas vezes até mesmo antes de Jesus, tem gente indo pra uma igreja atrás apenas de amigos – e não estão encontrando.


Ambas as imagens no post são do documentário “You Lost Me”, que você encontra AQUI.