Jesus era um comunista por criticar o amor ao dinheiro? Ou será que Yeshua valorizava a liberdade individual? É possível que a Bíblia não seja de Direita, nem de Esqueda? E se essas perguntas forem completamente inadequadas e desnecessárias?

Mateus, ao transcrever o Evangelho, em dado momento relata tais palavras de Jesus: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.” (Mt 12:30), posteriormente, no livro de Apocalipse, João também transcreve uma passagem curiosa: “Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3:16)

Muito embora tais trechos das Escrituras versem sobre a Salvação em Cristo e a santificação de sua Igreja, esses versículos parecem ecoar desde o assentamento institucional do cristianismo e repercutem de forma torta até hoje. O medo de ser morno, de ser vomitado da boca Divina, assumiu proporções dantescas, vestiu outra roupagem e deu vida a esse maniqueísmo de ideias que influencia todos os aspectos de nossa vida.

Ficar “em cima do muro”, como dizem, é algo abominável, sinônimo de covardia, falta de personalidade e, não muito raro, simplesmente incompreensível para muitos – como uma cabra ao analisar um teorema matemático. Desde cedo fomos adestrados que ideias como esta: “continue o injusto a praticar injustiça; continue o imundo na imundícia; continue o justo a praticar justiça; e continue o santo a santificar-se” (Ap 22:11) não dizem respeito apenas à indiferença no plano da Fé, e então passamos a “esquerdar” mais os de esquerda, “direitar” mais os de direita.

O chamado Bíblico contra a indiferença tornou-se um convite ao extremismo.

O chamado Bíblico contra a indiferença tornou-se um convite ao extremismo. Foi assim nas manifestações de junho de 2013, quem não estava nas ruas era conivente com tudo que estava errado no Brasil. Não importava se você achava o movimento inútil ou sem sentido pela falta de uma liderança, ou você era “por nós” ou era “contra nós”.

Quando cursava o 4º ano no colégio eu acreditava que o mundo se dividia entre os meninos “bons nos esportes” e os “estudiosos”. Por ser perna-de-pau, me esforçava no folhoso, já que eu não fazia parte “deles” eu me esforçava pra me manter nos “meus”. Cresci, vi que para quase tudo existe um espectro enorme de possibilidades, que o mundo é uma esfera justamente por ter infinitos – no sentido matemático mesmo – lados. Todavia, essa polarização infantil parece não querer nos deixar e agora toma corpo no segundo turno das eleições 2014.

Dos excessos, então, nascem os absurdos: meritocracia vira sistema a ser abolido e assistencialismo vira programa a ser execrado; um anseia pelo Estado mínimo, mas recebe 13º salário, outro prega um Estado forte, mas reclama dos impostos.

Esquecemos que “quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem” (Lc 3:11), ao mesmo tempo que “se alguém não quiser trabalhar, também não coma” (2 Ts 3:10). Não são contradições nem indecisões, é simplesmente o reconhecimento de que é necessário podar nossos instintos egoístas e mesquinhos, independente do lado em que surjam. Podamos o egoísmo com a divisão do que nos sobra e mitigamos o comodismo ao ressaltar a importância do esforço pessoal.

Podamos o egoísmo com a divisão do que nos sobra e mitigamos o comodismo ao ressaltar a importância do esforço pessoal.

Essa divisão de “nós” contra “eles” só prejudica nossa politização e a busca por um crescimento social. Um capitalismo sem o social vira predatório, um socialismo sem o capital não se sustenta. Parece pueril lembrar que não existe sistema perfeito, mas enquanto nos comportamos como crianças, se faz necessário.

Sempre achei sopa fria intragável, ao passo que ela quente sempre queimava minha boca. Aprendi a soprá-la e, desde então, nunca rejeitei uma porção. Importante não confundir o topo do muro com indiferença – normalmente é o único lugar de onde se enxerga os dois lados.


Capa: soup.