Em um encontro na 89 Rock FM, Ricardo Alexandre conversou com o *catavento sobre seu novo livro, Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar (50 causos e memórias do rock brasileiro [1993-2008]), espiritualidade cristã e música gospel.

Confira a reportagem especial sobre o autor e seu livro

 *catavento: Seu livro tem uma grande importância pelo registro histórico. Como foi perceber tantas coisas, tempos depois, tendo vivido a época?

Ricardo Alexandre: Eu acho que é impossível entender a história enquanto ela tá acontecendo. Por exemplo, essa clareza que eu expressei no livro, falando que o mercado no Brasil foi completamente dinamitado justamente e ironicamente no período de maior êxito comercial, que foi a segunda metade dos anos 90, isso emergiu pra mim com uma clareza durante a feitura do livro. Isso não era claro pra mim antes de escrever o livro. Se a gente não tivesse vendido tantos discos e o tanto dinheiro não tivesse circulado entre as gravadoras, rádios e jornalistas, hoje a gente teria uma música muito mais sadia e um mercado mais sadio. Basta dizer que foi durante essa época que as gravadoras acabaram com as lojas de disco (risos). Que é uma coisa completamente inacreditável. Mas isso só aconteceu porque eu tava olhando com 20 anos de distância. Então eu começo a entender com muita clareza, fora da estrutura com a qual eu tava alocado ali. Como diz o Einstein, você só consegue resolver um problema se você sai do nível em que ele foi criado. Essa possibilidade de você olhar para a história depois de um certo tempo é a única possibilidade. Tem nesse livro novo um certo apêndice do primeiro livro, o Dias de Luta. Aquele capítulo em que eu falo sobre os veteranos. Esse desdobramento dessa geração dos anos 90, era impossível de prever enquanto eu tava fazendo o livro. Mas ainda tinha coisa pra acontecer.

“A MÚSICA É SAGRADA DEMAIS PRA MIM PARA SER PROFANADA POR GENTE QUE TÁ NO MERCADO.”

As bandas dos anos 80 tinham uma ideologia mais clara, por conta do contexto político. Em seu livro você mostra como a busca pelo mercado pop foi muito intensa nos anos 90. Não havia ideologia nessa época?

R: O componente pop era parte da ideologia dos anos 80. A gente veio de 20 anos nos quais a gente não se comunicava ou a música vinha de maneira muito cifrada, por causa da censura. Quando a gente chega num nível muito mais “pedestre”, no bom sentido, a necessidade de falar com as pessoas era muito urgente. Nos anos 90, o Nirvana foi o grande arauto. Não só o Nirvana, mas o REM, o Pixies, os Smiths. Ali eu acho que a necessidade era distorcer um pouco. Então eu acho que todas essas bandas têm o DNA da distorção, da estranheza. A Nação Zumbi, o Raimundos, o Planet Hemp eram bandas que tinham alguma coisa que incomodava. E daí surgiram coisas interessantes. Mas havia o fator pop. Eu localizo um momento no qual o mercado começa a dar as cartas, na metade dos anos 90. E aí começa uma caça aos talentos que é preocupante. Esse processo vai perverter algumas bandas que tinham muita personalidade, mas que eventualmente não tinham vocação pop. Mas que poderiam ocupar um estágio intermediário muito promissor. Mas que tinham que acontecer diante de todo jeito diante do mercado, tinham que vender um milhão. Muita gente talentosa começou a se perder nesse caminho.

Você analisou a música dessa época e no livro é deixado claro que você é cristão evangélico. Em algum momento você refletiu sobre a música cristã ou gospel de hoje?

R: Como responder isso sem parecer arrogante e negativista? Eu nunca me senti atraído por essa estética artística chamada cristã ou gospel no Brasil. A minha experiência religiosa se deu ali no final dos 80, numa cidade do anterior onde a gente vivia muito os ecos dos anos 70 e 80. As referências pra gente ainda eram o Vencedores Por Cristo, Som Maior (que tinha um pedaço grande jundiaiense no grupo). E aquilo me parecia muito honesto, legítimo, mas muito limitado tecnicamente, plasticamente, esteticamente. E o que veio depois, que foi o chamado rock gospel, que era da turma da Renascer, das bandas de rock, me parecia que eram mais apuradas profissionalmente, mas não me diziam absolutamente nada. Eu achava as referências ruins. Era aquele rock americano, aquela coisa máscula, hormonal, muito pobre artisticamente. E eu acho que é tudo muito pobre artisticamente. Quando eu vejo o Diante do Trono com aquele som plastificado, visivelmente feita para o mercado, eu penso que isso não é arte, é mercado. E eu não estou dizendo isso em termos de intenções, mas de resolução artística. É evidentemente uma música refém de algum mercado. Parece comercial de alguma coisa, sabe? E eu realmente acredito que a música é um negócio santo, que é sagrada. Pra usar uma frase que tá no livro, a música é sagrada demais pra mim para ser profanada por gente que tá no mercado. Eu nunca me senti atraído por essa estética chamada gospel brasileira. Eu reconheço que estou sendo generalista e minha alma é tocada por muita gente, ocasionalmente. E eu acho que um jornalista não escreve sobre música e eu até reconheço que há grandes músicos. Mas a grande música não me interessa, não é a minha matéria prima. A minha matéria prima é a estética, o discurso e eu não vejo discurso nenhum no gospel brasileiro. E a estética, francamente…

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Tem alguém à margem do gospel que você admira?

“Eu achava que o Rodolfo fosse ser esse cara, o nosso Bob Dylan”

R: Tem sim. Eu acho que a criatividade brota espontaneamente em qualquer lugar. Independente do mercado, sempre vai ter gente fazendo coisas criativas em algum lugar. No eclesiástico não é diferente. Quando eu ouço Stenio Marcus, aquilo talvez seja além do que eu consiga detectar como belo. O Lucas Souza eu acho que é um gênio. Tem coisas brilhantes acontecendo o tempo todo…algumas coisa do Palavrantiga eu penso: “meu, de onde eles tiraram isso?”. São coisas que realmente me impressionam. Mas eu acho que a possibilidade de você desenvolver um caminho diante (pausa)… Ou você se alinha a esse mercado com eme maiúsculo, bold, caixa alta, que é O mercado hoje no Brasil, o Gospel… Talvez apenas o Axé seja um paralelo com rádios, empresários, eventos estabelecidos… Mas quando você se coloca diante deles, você vai fazer entretenimento pra crente, cara. E isso é muito parecido com a visão do inferno que eu tenho cara.

 

No livro você diz que o cristianismo tem a força revolucionária que o rock não consegue ter. Que somente ele é a verdadeira contra-cultura…

R: Às vezes eu acho que é uma coisa só existe na minha cabeça. Mas eu detecto fundamento histórico pra afirmar que a espiritualidade a partir de Jesus é o desdobramento seguinte da inquietação ética filosófica que o rock colocou à disposição do grande público. Eu cheguei a fazer uma sobreposição de mapas dos principais eventos dos anos 50 dos principais eventos do rock original com o Bible Belt americano. E era evidente que o rock surgiu pra provocar a hipocrisia, os desvios, o racismo. E depois tem uma linha muito clara que vai passar pelos Beatles, pela Mowtown, por uma voz de justiça. E eu acho que o problema do rock é que ele confronta tanto o sistema que um dia ele vira o sistema. É inevitável que isso aconteça. Ele tem um fator de de auto-engano como os punks se retalhando no palco e dois depois eles viram peça de boutique. E aí você começa a ver a frustração dos Beatles, do Nirvana, do Rogers Waters, caras que se perceberam se tornando aquilo que eles combateram. E pra mim o passo seguinte a essa inquietação é você lutar pela revolução interna. Então não me admira que o George Harrison tenha caminhado para uma reinvenção espiritual ou o Bob Dylan, para várias. É o passo seguinte, no meu entendimento. Mas eu acho que a igreja brasileira não tem estofo ético, artístico, atitudinal pra mudar nada. A igreja brasileira espera que Deus mude a minha conta bancária, meu carro, meu empreendimento. Eu achava que o Rodolfo fosse ser esse cara, o nosso Bob Dylan. E esse capítulo que tem no livro sobre isso é meio um convite pra esse diálogo. De que há um caminho e eu acho que o Rodolfo é o cara mais preparado como letrista, como músico. Ele entendeu tudo isso e ele verbalizou tudo isso, entretanto eu acho que isso não bateu nele desse jeito. Me parece que essa não é a viagem dele. Não é essa “gotta serve somebody”. É ser “tô aqui jogando videogame, pegando uma onda e tocando com meus amigos pra tocar”, sabe? E eu não sei porque é assim. Mas se Deus não resolve isso, não sou eu que vou resolver, né cara?

André Forastieri, de forma muito respeitosa, fala no prefácio do livro que as histórias contadas no livro só poderiam ser contadas por um homem de fé, como você. Como a sua espiritualidade muda o jeito de você entender esse contexto pop?

R: Eu realmente acredito naquilo que C. S. Lewis diz: eu acredito em Deus como eu acredito no sol, porque eu sei que ele existe e que por meio dele eu enxergo todas as coisas. Então eu não tenho dúvida de que o jeito que eu enxergo as coisas é filtrado por uma convicção espiritual inegociável. E não só a música. É o jeito que eu vejo a política, a criação dos meus filhos, o meu relacionamento familiar, sexual, filosófico, ético, profissional. E onde eu acho que essas duas lentes se encaixam com mais perfeição é quando eu vejo essa disposição de princípios no rock, na música pop. E eu vejo isso com muita frequência, em muitos lugares. Quando o artista “eu não vou fazer isso só porque o mercado está mandando”. Essa frase é uma das frases mais recorrentes na história da música pop. E ela me deu muita força durante a vida. Isso é tão poderoso, incrível, ideológico. E isso é tão diferente do que eu vejo no gospel. Comemorando porque tem um personagem na novela. Eu não consigo nem seguir num raciocínio desses.

Muitas vezes a cultura pop, o rock, nos motiva, mas sempre chega num beco sem saída. Se não fosse o preconceito, os desvios, os maus representantes de Jesus que a gente vê por aí a gente teria um passo seguinte com muito mais naturalidade do que a gente vê por aí. Por isso que eu acho que o Rodolfo foi certíssimo. Foi muito lógico o passo que ele deu. Mas o que eu vejo nesse universo da música religiosa, é um conforto muito grande. Se aproveitando desse mercado suculento, então eu vou me aproveitar para fazer música para esse público. Música de encomenda pra mim não é arte, é outra coisa. E eu gosto de arte. Outro dia um amigo me mandou um link daquela música do André Valadão que é uma cópia do Muse. E aí ele falou que era um absurdo e me perguntou se eu não estava indignado. Aí eu falei que não. Que isso pra mim era como se você tivesse me enviado um uma embalagem de uma marca de pasta de dente da Noruega que copiou uma outra da Iugoslávia. Isso não diz nada pra mim. É um universo do qual eu não faço parte. André Valadão? Isso aí é business, mercado. Isso não tem nada a ver comigo. Eu gosto de música, de arte, de postura. Eu gosto de acreditar que a música pode nos levar a fazer coisas, a possibilidades. Aquilo lá é negócio.


 

Lançamento beneficente nesta quinta, em São Paulo:

Lançamento do livro “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar”, com toda renda revertida para a Casa de Apoio (Vinheado-SP), que cuida de crianças em situação de risco:

São Paulo – Dia 13 de fevereiro, às 19h, Na Fnac Pinheiros (Praça Omaguás, 34). Na Galeria (3º andar)
Pocket show com a banda The Charts.

Rio de Janeiro – Dia 20 de fevereiro, às 18h30. Na Livraria Cultura Cine Vitória (Rua Senador Dantas,
45, Cinelândia). Debate e pocket show com o grupo Piu-piu & Sua Banda.

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