Uma das semelhanças mais curiosas entre as áreas de conhecimento humano, certamente uma das eu mais admiro, é a conexão que existe entre a linguística e a medicina. Foi através da comunicação, no curso de jornalismo, que eu descobri que semiologia é o estudo dos sinais nas duas áreas. A jornada da medicina é anterior e a da linguística é a mais recente. A diferença essencial está em como cada uma entende o que é um sinal.

Para a semiologia linguística, sinal é signo; para a medicina, sinal é sintoma. A dor, por exemplo, pode ser vista como um sintoma, um sinal de que algo está errado. Este sinal indica que existe algo acontecendo, uma causa. O motivo. A dor não tem termômetro, mas se usa um termômetro para tentar investigar a causa; a dor aguda e repentina pode vir de motivos variados e muitos exames podem ser feitos para detectar o motivo.

Investigar uma dor, portanto, seria muito parecido com o jeito como a gente analisa uma obra cultural. Por trás de qualquer filme, livro, música, há uma razão de ser – propósito, ideologia, arte pela arte, seja o que for. Durante a graduação, especialmente em relação ao cinema, eu acreditei inocentemente que o processo de interpretação era cartesiano como na medicina. Causa e consequência. Se a tela ficou azul naquela cena, quer dizer que se deseja transmitir frieza; se a trilha sonora ficou mais intensa, o objetivo é transmitir algum tipo de intensidade.

A armadilha começou a ser derrubada pelos cineastas onde o sinal, o sintoma, o signo na tela, não eram tão claros. A evidência não estava explícita ou mesmo dava uma rasteira nas regras. Para Bergman uma tela toda vermelha era como um grito; para Leone uma mosca no chapéu do cowboy passou a ser uma piada e não uma contextualização; para George Miller, um guitarrista cego no meio do deserto é mais que uma piada.

adelicadeza03

“Longe de escolhas estéticas mais radicais e muitas subjetividades, ‘A Delicadeza’ é uma comédia romântica francesa de sinais que não entregam o esperado

 

 

 


 

Veja por exemplo o filme “A Delicadeza do Amor”, dirigido por David e Stéphane Foenkinos em 2011 e disponível no Netflix Brasil. É um exemplo de um segmento do cinema francês que, quando se faz conhecido, é através de mostras como a Varilux. Longe de escolhas estéticas mais radicais e muitas subjetividades, “A Delicadeza” é uma comédia romântica de sinais que não entregam o esperado.

Ao primeiro olhar, nos surge um filme doce sobre um casal e uma perda. A viúva Nathalie Kerr (interpretada com destreza por uma Audrey Tautou longe de Amélie Poulain) passa a utilizar a dedicação e rigor no trabalho como escape essencial à sua dor.

Sua dor (crônica e cada vez mais guardada para si), a transforma. Seu sintoma essencial passa a ser a casca que a cobre, que a distancia e, invariavelmente, a protege do mundo que a cerca. A protege do chefe canastrão, mas também a mantém longe de novas possibilidades.

Quase como um deus ex, o roteiro cutuca essa casca de Nathalie com uma reação inesperada a um sujeito inesperado – que evitamos contar aqui para não estragar a surpresa. No compromisso padrão das comédias românticas com o emotivo (e o lindo conto de fadas), o que veríamos é um esperança que vem pintada de Brad Pitt – um novo “amor” belo, intenso e avassalador.

Mas em “A Delicadeza do Amor”, esse momento vem desajeitado, tímido e com a sua própria casca. Nathalie se descobre, enfim, se lançando no inesperado e aqui começa a brincadeira mais importante do filme.

O encontro (no sentido de dois mundos se encontrando) de Nathalie com Markus Lundell é como um encontro de sintomas. Um encontro de dores guardadas que juntas entram numa espécie de contraste entre carisma e repulsa.

Temos, por exemplo, o medo em Markus por estar acostumado a ser tratado como o estranho. O filme chega a nos colocar diante de uma cena onde quase pensamos que ele é parte da imaginação de Nathalie. No restaurante, durante um encontro, um bêbado oferece uma bebida a ela, quase como se Markus não existisse.

Acostumado a ser invisível, Markus se depara com uma casca como a sua e que também começou a se quebrar.

Juntos, Nathalie e Markus estão quebrando as cascas um do outro e trocando os sintomas antes presentes por uma delicadeza que dá título ao filme.

Sem spoilers, é preciso dizer que a obra se encerra com um plano-sequência que visita toda essa temática. Markus descobre que está, desde o início, descobrindo os sinais de Nathalie como quem passeia por um jardim. Há flores e espinhos, há dores crônicas e agudas e, como em sua própria vida, há sorrisos e lágrimas. A sua certeza é de continuar explorando e descobrindo esses sinais – não como quem deseja apenas entregar os remédios, mas quer ser parte da cura.