“Eu olhei a tristeza nos olhos e sorri…” – Os Arrais

No começo dos anos 2000, quando eu era um adolescente que acordava cedo para ir à escola, vez ou outra esbarrava no desenho Ozzy & Drix. Acho que passava muito cedo, na TV Cultura ou na Globo, perto daquele horário do Telecurso 2000. Não lembro se ele chegou a frequentar o horário nobre da TV Globinho por algum momento, mas sempre me chamava muita atenção. Era uma série animada que continuava a história dos personagens que tinham sido introduzidos no filme Osmose Jones, estrelado por Bill Murray. Osmose é um detetive “glóbulo branco” e sua jornada ao lado do remédio Drix era dentro do corpo humano, combatendo vírus e bactérias. Uma chatice.

Era diferentão, cheio de estilo no cartoon e lembrava coisas como o desenho do MIB – que sempre foi um dos meus preferidos. Ozzy & Drix era bem nerd. Tipo uma aula de biologia cool, mas ainda cabeçuda demais para o público infanto-juvenil.

Mas havia algo de sensacional naquilo tudo: ele mostrava como funcionava o corpo humano por dentro e a batalha diária das células. Só que ele não fazia isso ao estilo Discovery, mas numa brincadeira com os filmes e séries de TV onde há uma dupla de policiais combatendo o crime. Parece legal agora, né? Legal como Divertida Mente, que fez quase a mesma coisa, só que explicando nosso cérebro.

A destreza da Pixar em contar histórias sempre foi admirável. Até mesmo quando não acertou tanto, se manteve acima da média geral no jeito de trazer narrativas para crianças. Seus filmes de animação podiam ser facilmente comparados a um live action qualquer feito para o mesmo público – e sairiam ganhando.

O recurso mais evidente que a Pixar conseguiu desenvolver na maior parte das vezes foi tocar pais e filhos numa mesma história. Seja por um humor referencial ou por ideias claramente profundas sobre a humanidade, a Pixar consegue entregar riso e diversão, enquanto dá uma moral às suas histórias que fazem sentido para gerações tão diferentes.

Uma história universal é aquela que é contada no interior da Amazônia e no centro de Berlim e ela fará sentido. Mas o que é uma história que toca tanto uma criança com 10 anos como um pai com 40?

Divertida Mente é o resumo do que isso significa. E faz isso se assemelhando a Toy Story. Sua história cruza verdades sobre as duas gerações: para o adulto, a lembrança de como as coisas foram e se desenrolaram; para a criança/adolescente, como as coisas são.

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“Sua história cruza verdades sobre duas gerações: para o adulto, a lembrança de como as coisas foram e se desenrolaram; para a criança, como as coisas são”

 

 

 

 

 

A cabeça de Riley é a cabeça do público infantil que assiste Divertida Mente, mas também é como já foi a cabeça do adulto que já viveu tudo aquilo. Esse momento de identificação tem seu ápice na cena do jantar à mesa, quando é revelado o interior da mente do pai e da mãe. Eles possuem personagens lá dentro, cada um a seu estilo, mas com os mesmos padrões de sentimentos.

Ainda que essa seja uma postura interessante da Pixar para explicar como funciona nossa cabeça para uma criança, é mais profunda a verdade em torno das ilhas de personalidade. No universo de Divertida Mente, elas se constroem e se desconstroem no desenrolar dos conflitos da narrativa e a “Ilha da Família” recebe atenção especial.

Nesse momento, o filme dá um passo considerável em torno da ideia de que a família é o ponto limítrofe entre o equilíbrio e o desequilíbrio da sua personalidade na vida de uma criança. Pode-se perder/diminuir as ilhas da bobeira e das amizades, mas perder a ilha da família seria como encerrar a narrativa – o filme acabaria sem resolução.

A tristeza apareceria, portanto, como consequência negativa das escolhas de Riley. No filme, esse sentimento é constantemente tratado como algo que atrapalha e vai derrubar nossa protagonista. Até que a própria alegria entende a ideia de que não existem sentimentos unilaterais e que o trabalho de todos ali também não pode ser compartimentado. É aí onde as coisas mudam e a tristeza passa a ser entendida de uma forma nova.

Pode soar bobo interpretar tudo isso por aqui, mas até onde vai minha curta experiência com filmes infantis, não é todo dia que a gente vê uma narrativa valorizando o papel da tristeza na vida de uma criança. A resolução do filme, para chegar no que está além dos sentimentos (os valores, as ilhas) depende totalmente daquilo que a gente, por tantas vezes, considera apenas como negativo.

Divertida Mente mostra, de forma simples, como a gente é por dentro. Fazendo isso, o filme se constrói de forma brilhante por conseguir mostrar a uma criança que os sentimentos “trabalham” em torno do que pode durar para sempre. E o que dura para sempre forma o ser humano.


 

DIVERTIDA MENTE (2015, Pete Docter e Ronaldo Del Carmen)
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