‘As coisas se constituíram assim…”. “Constituíram…”. Usaram essa expressão comigo há algumas semanas e não consegui me desgrudar dela. Talvez esteja mais apaixonado pela sonoridade do que pelo que ela pode mudar se comparada a outras, sinônimas. Soa diferente falar que as coisas se construíram assim, se formaram assim. Mas o que quero mesmo dizer é que nessa frase existe alguma redescoberta sobre o passado sempre que penso nela outra vez. Dizer “as coisas se constituíram assim” é olhar para os acontecimentos com mais leveza, como se os erros tivessem que merecer apenas atenção suficiente – não pouca, que nos faria cair na ilusão, ou muita, nos levando uma culpa desgastante. O certo, mesmo, é que faz uma diferença danada levar as coisas com mais leveza.

“Serenidade é um movimento de dança diante do caos”Serenidade é um tipo de benção que deveria ser considerada mais seriamente. A gente enxerga melhor algumas coisas e outras a gente nem nota, só porque não vale a pena dar atenção àquilo. Não deixa de ser um movimento espiritual progressivo que se faz: às vezes vai ser necessário “transcender” pra escapar e se manter longe a fúria batendo à porta. Aí se canta até com mais propriedade que “sereno é quem tem a paz de estar em par com Deus”.

Não se trata exatamente de um lugar para estar e que se consiga habitar toda hora – isso a gente tem certeza que não se alcança, pelo menos não aqui, agora. Mas visitar com certa frequência cai bem, muito bem. Diferente de ser calmo ou de obedecer certas rotinas que demonstram fisicamente este sentimento, serenidade é mais um movimento de dança diante do caos. Esbarrar no caótico toda hora (não é assim, hoje?) deveria funcionar mais como aquela contemplação em “Melancolia”, do Von Trier. É escolher entre ser sugado pela gravidade do planeta prestes a esbarrar no nosso ou só respirar. E parar par apenas respirar, hoje, não é uma posição de passividade frente ao turbilhão. Como ouvi um tempo atrás e ainda carrego comigo: se ficar estressado resolvesse, era um mundo belo que teríamos hoje.

É desse scary world que a gente morre de medo. De quem não tem receio de pisar no outro pra garantir o seu (esqueça os políticos, tô falando de gente), de quem garante muito que seu juízo é sempre acima do bem e do mal, por motivos inexplicáveis (ou não). A gente se assusta toda hora com as atrocidades do outro, tão perto de nós. Ou mesmo porque nós agimos assim, sem pensar. Confesso que deve me faltar mais “transcendência cristã” pra suportar isso. Se as vivências e sentimentos muitas vezes andam frágeis neste sentido, lembro da música que talvez tenha sido a mais espiritual de todas que ouvi nos últimos meses. É nesse tipo de confiança numa eternidade (atemporal, infinita, só pra lembrar), cantada por Marcelo Camelo, que parece valer a pena apoiar a busca pela serenidade: “já não tenho medo do mundo, sou filho da eternidade”. O eterno sereno que a gente tanto quer, porém, passa e a gente não vê. Às vezes, as coisas se constituem assim, mas não é por isso que elas devam ser assim pra sempre.


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Ricardo Oliveira
é jornalista, mestre em comunicação, nerd, blogueiro no Diversitá e megalomaníaco por produção de conteúdo. Tenta filmar seu primeiro curta de ficção, edita o *catavento nas “horas vagas” e é um gamer razoável.


Foto: Ricardo Oliveira
*Texto originalmente publicado no Diversitá.