Amigos, melhor é gostar com custo do que gostar “de graça”.

Não se descobre isso fácil, é preciso deixar claro, mas não tem comparação. Não mesmo. Essa história de “gosto de você, de graça” é furada. Quem gosta de graça também desgosta fácil assim.

Gostar de graça é meio que ser apressado; ficar na superfície e curtir os sorrisos, os docinhos, a simpatia. É ficar satisfeito com uma possível grande empatia inicial e nem mesmo pisar o suficiente no território, pra não correr o risco de descobrir que tem um espinho aqui, outro acolá.

No gostar com custo já se sabe que se relacionar, de verdade, é processo trabalhoso. Sabe que, se gostar, também terá de estar com luvas prontas – sim, pra lidar com os espinhos. [A princípio, estou falando de amizades, mas o resto também cabe aqui].

Gostar com custo é insistir. Abrir o jogo antes que fique tarde e se desgoste de graça. Um rumo terrível, convenhamos. Nada pior do que gostar de alguém com custo e deixar de gostar, assim, por motivo muito pequeno.

Isso, por sinal, é coisa comum hoje em dia. Fica a dúvida: se desgosta mais rápido do que se gosta ou é ao contrário?

“Há poucos silêncios tão dolorosos tanto quanto o seu próprio, depois de uma crítica sincera vinda de quem gostamos”Há poucos silêncios tão dolorosos tanto quanto o seu próprio, depois de uma crítica sincera vinda de quem gostamos. Lembra um pouco aquela coisa de adolescente que diz “eu te amo” por tudo. Porém, se a geração dos 20 e tantos anos de hoje é lotada de gente vivendo adolescências tardias, a equação funciona: tem gente demais dizendo “eu te amo” por nada. Quem gosta com custo aprende que um eu te amo, sincero, demora. Demora porque amor até pode ser de graça, mas fazer dele algo contínuo e presente, custa.

Custa porque dá trabalho abrir mão e, ao que me parece, é muito disso que significa de fato, amar – amigos, amigas, namorada, pai, mãe, filhos. Aprende-se com dor a gostar com o “ainda que”, “independente de”, ou “mesmo se”.

Gostar com custo é pra gente que se permite mudar – pra melhor – todo dia. Só assim vai se conseguir encarar todo o trabalho que é melhorar. Ouvir o ruim sobre si e calar se fizer sentido. Ouvir um não e entender. Sim, porque há essa mania incontrolável de discordar da crítica sobre si, apenas porque se faz necessário ter um tanto de orgulho e se defender.

Há poucos silêncios tão dolorosos tanto quanto o seu próprio, depois de uma crítica sincera vinda de quem gostamos. Melhor, sem dúvida, que venha de quem a gente gosta. Especialmente quando a outra parte sabe que somos desses que tentam melhorar um pedaço todo dia e aguentam o tranco. Nessa de querer bem, a gente não critica…sugere. Já não se engole seco, nem se replica por mania – é pensar duas vezes e circular o diálogo.

Veja que gostar de graça não é de todo mal. Tem gente que esbanja um nível de carisma apaixonante que faz impossível o não “gostar de graça”, rapidamente. Exagero aqui para que se valorize o que me parece importar mais: não se perder nas superfícies da simpatia que se constrói pra estabelecer certos status, impressões e presenças. Não fiquemos nessa.

A todos os que gostam com custo e hoje me cercam, obrigado pelo aprendizado. Os puxões de orelha, sugestões e diálogos podem até dar trabalho inicial, mas se desdobram muito bem depois. Afinal, a gente aprende mais com quem gosta de nós independente dos custos, do que com os que gostam “de graça”.