Estes dias, peguei uma carona com um amigo, uma boa carona, boa companhia. Ao entrar no carro, percebi que estava escutando Djavan, comentei e ele disse que gostava e que era o disco mais recente. No caminho, o assunto foi para todos os lados, falamos sobre música, religião, que são duas coisas que amo, literatura, falamos sobre política, futebol, estes papos bons, sabe?

Temos pontos de vista diferentes sobre muitas coisas, mas o assunto flui com naturalidade e respeito mesmo quando discordamos veementemente da posição um do outro.

Em um dado momento, ele diz que o Brasil não está bem, que a corrupção está muito grande, que o Bolsa Família compra votos e as pessoas se encostam por causa dela, que o governo atual do PT tem agido de forma absurdamente corrupta… e vamos nós concordando e discordando um do outro.

Caminhando no assunto, ele também afirma que seria até bom se, por tempo determinado, o Militarismo tomasse o poder para “acertar” a casa. Ele expressa que se sente incomodado com o grande número de nordestinos em São Paulo e diz que deveria ser feito algo como a Zona Franca de Manaus no Nordeste, assim os nordestinos não viriam para o Sudeste e cada um ficaria no seu lugar, haveria desenvolvimento econômico e todos os benefícios que ele traz junto, haveria melhores escolas e poderiam ter uma vida melhor no Nordeste, mesmo.

Muitos pensamentos me visitaram ao ouvir estas opiniões, mas eu me calei, não foi uma preferência, eu apenas calei e pensei: “O governo militar teve como primeiro presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, um cearense. Aproximadamente 30% dos presidentes que o Brasil teve são nordestinos. Na literatura, que me lembro agora, temos João Cabral de Melo Neto, José de Alencar, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Gregório de Matos, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira e, se não me engano, Clarice Lispector dizia-se pernambucana em sua brasilidade; vou me abster de listar os intelectuais e os artistas.

Chegado ao ponto de descida, agradeci a carona, o bom papo e o deixei seguir ao som de Djavan.


Jader
Jader Finamore tem 32 anos. É músico, teólogo, membro da Amlac (Academia de letras, artes e ciências da região metropolitana de Campinas/SP), pesquisador e produtor cultural.


Foto: Danny Botelho

*Nota do editor: a fotografia que ilustra o artigo é das rendas produzidas por todo interior do Nordeste. Super elaboradas e cheias de detalhes, representam como o assunto aqui apresentado por Jader é complexo e, tal como as rendas, exige tempo para “se resolver”.