Como expliquei no fim do ano passado, a chegada de minha primeira filha mudou prioridades e mexeu com o tempo disponível que dispunha para fuçar as esquinas da web atrás de preciosidades musicais. Não ouvi muitos discos, mas mergulhei de cabeça nos poucos que encontrei — seja por meio de amigos, rádio, TV ou internet. Listo abaixo alguns álbuns que tocaram no repeat durante meus primeiros passos de pai, marcando descobertas, medos e alegrias, além de outros que achei em 2016 — mas que mereciam figurar nesta compilação.

Sufjan Stevens – Carrie & Lowell

O simples fato de o disco homenagear a mãe esquizofrênica e alcoolista que abandonou os filhos na infância compõe um pano de fundo instigante. Sufjan está no auge de sua verve angustiante e reflexiva. As letras falam de relacionamento familiar: amor, culpa e medo, entre tantos outros sentimentos comuns a todos nós. No quesito instrumental, toda a parafernália peculiar dá lugar a um som mais etéreo e triste, com violões dedilhados lentamente e dobras vocais em eco.

Não deixe de ouvir: “Should Have Known Better”
Por quê? Não é todo dia que você ouve um cantor falar sobre como foi abandonado pela mãe em uma locadora aos três anos.

The Brilliance – Brother

O duo, como expliquei no último post, é formado por dois integrantes do aclamado Gungor: David Gungor e John Arndt. As produções são construídas aos poucos, sobrepondo elementos e ganhando corpo enquanto o piano de Arndt executa linhas que remetem à Yann Tiersen — aquele da trilha sonora de Amelie Poulain –, acompanhado por cellos e belas harmonias vocais. As letras confessionais dão profundidade ao som. A melhor descoberta de 2015.

Não deixe de ouvir: “Brother”
Por quê? Repare as linhas de piano, costuradas pelas variações de ritmo e incrementadas pelas cordas cada vez mais altas. Quando chega o último refrão você quer gritar junto!

Jon Foreman – The Wonderlands

O frontman do Switchfoot retoma a fórmula que deu certo em 2008 com “Limbs and Branches”: violão contrastando com as guitarras cada vez mais pesadas da banda; melodias mais melancólicas que o habitual no ensolarado grupo californiano. São 24 músicas, compostas e produzidas ao longo de dez anos para emular as sensações que temos durante as 24 horas de um dia. Não tinha como dar errado.

Não deixe de ouvir: “Ghost Machine”
Por quê? O folk tradicional ganha um tom psicodélico e soturno, em uma reflexão pertinente sobre nossos fantasmas diários.

Kivitz – Casa ≠ Lar EP

Apesar das faixas disponibilizadas a esmo na internet, foi com o EP lançado ao final de 2015 que o rapper paulista começou oficialmente sua jornada musical. Em tempos de discursos cada vez mais distorcidos no universo cristão, a mensagem de Kivitz é essencial. Sua voz merece espaço no fone de ouvido desta nova geração, que anseia por alguém que resuma tantas indignações e críticas em uma faixa de três minutos. Versos amolados para inquietar a alma.

Não deixe de ouvir: “O Último Cristão”
Por quê? Impossível elogiar um rap sem ter vontade de colar trechos gigantes da letra. Repare a tensão construída pela entrada da guitarra. Simples e eficiente.

Lucas Arruda – Solar

Pra quem acha que a black music brasileira é Anitta cantando R&B genérico no Faustão, eis uma ótima oportunidade para descobrir o que há de melhor no país. Lucas bebe no funky-soul-samba dos anos 70 de Marcos Valle, Robson Jorge e Lincoln Olivetti, com pitadas de sintetizadores. O artista chega recomendado por Ed Motta e teve dois álbuns lançados na Europa e no Japão. Credenciais o disco tem de sobra. A voz em falsete e o rhodes suingado fazem jus aos aplausos. É capixaba, preciso ressaltar! 😉

Não deixe de ouvir: “Melt The Night”
Por quê? Repare a primeira puxada de piano rhodes, a entrada do baixo sintetizado e me diga se não dá vontade de ouvir essa levada por horas.

Tiago Iorc – Troco Likes

Conhecido no meio alternativo pelos trabalhos em inglês, Tiago Iorc lançou em 2015 um álbum 99% em português, acertando em cheio na ironia fina. O trabalho, subestimado e zombado na internet pela capa e pelo título cômicos, faz do algoz sua presa. O disco inteiro é uma reflexão mais que pertinente sobre nosso comportamento no ambiente virtual. “Gente demais, com tempo demais, falando demais, alto demais”, critica em “Alexandria”, parceria com Humberto Gessinger. Há muito o que analisar por trás da estética fofo-pop do pretenso John Mayer brasileiro.

Não deixe de ouvir: “Coisa Linda” (em especial, porque cantei muito pra minha filha)
Por quê? Ele rima “manhã” com “chá de hortelã” sem soar brega, ok?

Saulo Porto – Bem Cedo

Parece nepotismo, mas não é. O segundo disco do multi-instrumentista capixaba — que por acaso é meu primo — revela um amadurecimento digno de nota. Riffs grooveados de quem tem o baixo como instrumento principal, letras complexas e experimentação de timbres alternativos. Aos poucos, tem criado uma marca registrada, semeada e florescida em algum terreno entre o britpop e o Los Hermanos.

Não deixe de ouvir: “Pode ser bem cedo”
Por quê? São muitas referências misturadas em uma mesma faixa. Detalhe para as viradas de bateria e para os backing vocals beatlemaníacos.

Interlúdio – Raiz

O grupo embarca na onda de novos artistas que referenciam e reverenciam o Clube da Esquina. Estética folk rock, com nuances de Guitar Hero e indie rock. As ambiências que o disco propõe casam perfeitamente com as letras tão poéticas e, ao mesmo tempo, tão cristãs do vocalista Diego Marins. O timbre dele, por sinal, soa diferente em um primeiro momento, mas cativa rápido dentro do contexto da banda.

Não deixe de ouvir: “Raiz”
Por quê? Porque a faixa é um crescendo contínuo. Começa com cara de jam session de fim de show e termina com um solo épico. Você bate cabeça junto.

Josh Garrels – Home

A pegada retrô das primeiras faixas situa o disco entre os anos 60 e 70, mostrando que você não está diante de uma obra qualquer. A voz encorpada ganha força nos falsetes, trazendo à tona as diferentes influências do artista. O balanço e a delicadeza das faixas misturam folk, R&B, indie, tudo e mais um pouco na mesma panela. Dica mais que preciosa do leitor Eliezi Luiz.

Não deixe de ouvir: “Colors”
Por quê? O piano wurlitzer e o órgão hammond, com seus timbres retrôs, casam com o vocal em falsete do refrão, criando um tom intimista. Em dia de chuva funciona ainda melhor.

Versos Que Compomos na Estrada – Desate

Curto e intenso. Não há frase que resuma melhor o impacto que este EP de 12 minutos causa. Impossível passar impassível diante da doçura regional que marca o trabalho. Resultado da combinação de vozes dos protagonistas deste duo e do violão habilidoso, guia das melhores harmonias do disco. Descobri no catavento*.

Não deixei de ouvir: “Candeeiro”
Por quê? Os acordes e melodias evocam o que há de melhor na música nordestina. E eles ainda conseguem fazer um uso simplista e moderno da sanfona. Coisa bonita de ouvir.

Tulipa Ruiz – Dancê

Confesso que torci o nariz quando imprensa e blogs especializados jogaram luz sobre Tulipa no mesmo ano em que Marcelo Jeneci e Léo Cavalcanti debutaram para a música nacional. “Religar”, de Léo, por sinal, é o melhor e mais subestimado dos três discos — mas isso é assunto para um possível outro post. O fato é que Tulipa deu mostras do que é capaz no excelente segundo disco (“Tudo Tanto”, 2012) e mostrou que ainda tem muita lenha para queimar em seu último trabalho. Uma aula de música alternativa, ainda assim, acessível e de qualidade.

Não deixe de ouvir: “Proporcional”
Por quê? Além da mensagem de enfrentamento aos padrões de beleza, destaco os arranjos do naipe de metais. Alternam muito bem entre as respostas rápidas e as “camas” para as variações harmônicas.

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