Ultimamente, nas redes sociais, uma profusão de mensagens “Deus não está morto” ou “God’s not dead” tomou conta de muitas timelines. Curiosamente, todas elogiando o filme que carrega o mesmo nome – que já estreou no Netflix e chegará em alguns cinemas nacionais ainda nesta semana. Se você ainda não sabe o que se trata, confira o trailer:


Enredo e personagens

A sinopse bem poderia ser: “Um aluno é desafiado por um professor a provar que Deus existe e lida com as dificuldades para atingir seu objetivo”, claro, se ele não possuísse mais 7 (sete) tramas espremidas dentro dos mesmos 113 minutos.

Não é exagero, o trailer consegue mostrar praticamente um trecho de todas as cenas que envolvem o aluno em seu embate com o professor. Isso por que esse mesmo mestre vive um conflito com sua namorada (que é cristã), enquanto não está bizarramente perseguindo abertamente um calouro universitário.

Zeus não está morto.

Zeus não está morto.

Essa tal namorada se sente humilhada pelo namorado/professor e também vive um drama com sua mãe que tem alzheimer. Ela também tem um irmão, que é bem sucedido, usa as pessoas e não se preocupa com a mãe (ou com Deus, é claro).

Super-Ateu

Super-Ateu

Uma das pessoas usadas pelo Clark Kent malvado é uma repórter, que também não acredita em Deus, e descobre que está com câncer.

Praticamente desconexos das histórias acima, temos uma jovem islâmica que esconde sua fé cristã do pai, um intercambista chinês que se convence da existência de Deus e desafia seu pai e, por fim, um pastor que com problemas mecânicos e que considera seu ministério irrelevante.

Pode contar, são sete além da “principal”.


O intuito da obra

Nos créditos, o filme afirma que foi produzido em defesa de todos aqueles que foram perseguidos em instituições acadêmicas e cita julgados da corte norte-americana sobre o tema.

Tal perseguição intelectual existe, o tema vale a discussão, porém o filme não se presta à isso. Não é sobre a pressão que alguns alunos sofrem em virtude de suas crenças, mas sim uma tentativa de provar que a ciência atesta a existência de Deus e que os ateus estão em completa negação.

Ou seja, nutre ainda mais a ideia de que ciência e fé são rivais, assim como fomenta o embate entre cristãos e ateus de forma nociva.


Estereótipos ateus e argumentação rasa

O filme deixa claro que, em sua visão, todo ateu é alguém que se desiludiu com Deus, tentando incutir a ideia de que trata-se apenas de um ódio disfarçado de indiferença. Diz ainda abertamente que fora do cristianismo não existe moral, ou seja, lança argumentações dignas de um estudante do 6º ano fundamental.

Quando questionado sobre a existência do mal, o aluno/protagonista, fala triunfante que ele existe por causa do “livre arbítrio” e todos olham com aceitação e o professor com raiva por ter sido “derrotado”. Não é preciso dizer o quão rasa essa argumentação é.

- Peço ajuda aos universitários!

– Peço ajuda aos universitários!

No seu momento de triunfo, o aluno concatena argumentos frágeis e dirige-se soberano ao professor enquanto repete cada vez mais alto: “Por que você odeia Deus?”, ao que este rompe em ira: “Por que ele tirou tudo de mim!”.

“Então como você pode odiar algo que não existe?”. Aí vem o ápice do filme, os alunos concordam que Deus não está morto por que o professor de filosofia odeia Deus. E é assim que o filme promete um debate sobre a existência do Divino e entrega um divã sobre os problemas pessoais superficiais de um professor.

Então fica no ar o argumento sem sentido como se sentido fizesse: Deus existe por que quem discorda disso secretamente odeia Deus.

Talvez por isso, no Rotten Tomatoes o filme conte com 82% de aprovação dos usuários e apenas 17% por parte dos críticos.


Estereótipos cristãos e desforra

Enquanto os não-cristãos formam os vilões do filme, sendo pessoas sem escrúpulos e mal resolvidas, os crentes compõem os heróis por serem doces e determinados.

Não precisa ir longe para comparar o professor ateu com um evangelista da TV; o executivo que usa as pessoas com qualquer charlatão da fé; e, por fim, o pai muçulmano que expulsa a filha convertida de casa, com os inúmeros filhos gays que são expulsos pelos pais evangélicos.

Se o foco do filme é atingir pessoas marginais ao cristianismo, pintá-las como seres desprezíveis e retratar-se como um poço de virtudes não é das melhores abordagens. Na verdade é justamente o oposto, pois no fim da história eu já queria sentar a mão no protagonista de tanta arrogância que exalava.

Isso se dá por que o filme é claramente uma “desforra” hollywoodiana. Não se está passando mensagem nenhuma, mas sim respondendo à todas as pseudo-agressões sofridas pela mídia. E talvez esse seja o sentimento de quem termina o filme e obedece o apelo de enviar a mensagem: “Deus não está morto” para todos os seus contatos.

Não é uma mensagem de amor, é uma demarcação de território. É fazer como os animais e urinar na cabeça das pessoas.

No IMDb, o filme está com nota 4,9/10 e possui reviews com títulos tais como: “Inacreditavelmente simplista”; “Deus não está morto, mas esse roteiro deveria estar”; “Ofensivo em sua premissa mais básica”, para citar alguns.


Uma mensagem perigosa

Não apenas ruim e inútil, o filme é genuinamente perigoso.

Em primeiro lugar, parte da premissa que Deus precisa ser defendido academicamente, que somos todos arautos da honra de Deus. Somos mensageiros sim, mas da boa-nova, do seu amor, da sua redenção e Graça.

Esta última que, por sinal, foi pro saco juntamente com a Soberania divina. Em um dado momento, um dos personagens questiona outro por que ele (sendo mau) tem tudo enquanto o outro (sendo bom) não tem nada, e surge a pérola: “As vezes o diabo permite que a pessoa tenha uma vida perfeita, para que ela não se volte para Deus”. E assim Deus fica refém do diabo e daí podem se desdobrar as mais loucas heresias.

Mas voltando à “advocacia” da fé, perceba que o problema é categorizá-la como uma defesa unicamente acadêmica. Esquece-se que os judeus pediam sinais enquanto os gregos pediam sabedoria, mas como disse Paulo: “nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.”

Não prego o descarte da ciência, tampouco que ela não ateste a existência de Deus. Acredito justamente no contrário, e por isso não preciso provar que Deus existe. Esse é o mistério de quem crê, Ele já está provado. Novamente, Paulo: “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias;”


Opinião final

Não é um filme para ateus ou descrentes, pois é incrivelmente ofensivo à todos que não professam a fé cristã. O Metacritic, que faz uma média de reviews em vários sites, deu nota 16/100 para o filme com base na opinião dos críticos e apenas 32/100 com base na opinião de usuários.

É, na verdade, um enredo para aqueles que buscam validar o que creem através de fontes materiais. Que querem solidificar sua crença através de uma opinião externa, de um modelo atômico que escreva “Deus existe”.

É, por fim, um filme para cristãos sem fé e que, infelizmente, só os fazem afundar ainda mais.


Deus Não Está Morto

Direção: Harold Cronk
[rating=1]


Capa: divulgação.