[dropcap1]N[/dropcap1]o ano de 1983, John Hull perdeu completamente a visão que começara a se deteriorar desde sua adolescência. O fato se deu meses antes do nascimento da sua filha caçula.

A fim de conseguir lidar com a situação, o escritor e teólogo gravou, durante 3 anos, um diário em áudio de sua experiência. “Notes on Blindness” (Notas sobre cegueira – em tradução livre) é permeado pela capacidade descritiva de John, perfeitamente resumida pelo Los Angeles Times ao criticar seu livro “Touching the Rock” (Tocando a Rocha, em tradução livre): “talento para – nas palavras do poeta cego John Milton – tornar a ‘escuridão visível”.

O vídeo é inteiramente narrado pelas gravações originais de Hull, entretanto ainda não possui legendas em português. Mas você pode conferir no próprio site do The New York Times uma versão com legendas em inglês. Dica: assista com fones de ouvido, para perceber bem a sonoridade.

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John narra como após um tempo teve que lutar para não perder as memórias visuais que possuía, pois aos poucos até mesmo as feições da esposa eram difíceis de lembrar.

[quote_left]”é como se tornar um fantasma”[/quote_left]Para ele também foi impactante perder a imagem do próprio rosto, “é como se tornar um fantasma” – conta. Nos seus primeiros registros, ele narra que ser visto é existir e transparece a angústia ao ouvir de sua filha “queria que você pudesse me ver”. Naquele momento, na percepção de John, sua filha acha que não existe para o pai.

Mais adiante ouve-se uma narração do que parece ser um registro de mais uma conversa entre John e sua filha mais nova. Ele começa explicando que Deus o ajuda de várias maneiras, uma delas é lhe dando coragem e logo em seguida repete a pergunta que lhe fora feita: “Por que Ele não devolve seus olhos?”. O silêncio de Hull indica que ele até hoje não tem uma resposta sincera para a pueril pergunta.

O curta é divido em três estágios: o primeiro na reconstrução de si; o segundo é focado na luta de John contra a angústia de saber se algum dia ele irá encontrar paz na cegueira.

[quote_right]”um cobertor que preenche o vazio do mundo”[/quote_right]Por fim, o último estágio é uma celebração aos sentidos. Ainda sem resposta sobre o porquê de não ter seus olhos de volta, ouvimos os primeiros relatos de John ao perceber as riquezas por trás da percepção não visual. O som da chuva cria, nas suas próprias palavas, “um cobertor que preenche o vazio do mundo”. O isolamento e as preocupações internas saem e ele narra que é apresentado a um novo mundo, no qual ele pode relacionar-se.

“It is beautiful to know” – É bonito saber, encerra John. E com isso temos a certeza que ele abraçou uma nova forma de enxergar o mundo.
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Foto: reprodução.
Para acessar a página oficial do The New York Times sobre o curta, clique AQUI.