A crise política que se alastra pelo Brasil está cada vez maior e também mais confusa. O número de vozes só aumenta e as redes sociais potencializam o emaranhando de ideias, gerando um estado de perplexidade em muita gente – sem saber para onde correr, muitos cristãos se perguntam: qual lado devo tomar?

Para nós, aqui do catavento*, não foi diferente. No auge das delações, gravações, MoroLulaDilma, etc., não se buscava outro assunto e aqui no site tentávamos, sem sucesso, concatenar as ideias apenas para no instante seguinte tudo estar embaralhado novamente.

Como observadores silentes, então, observávamos enquanto a famigerada “polarização política” distanciava de modo abissal os lados opostos em disputa – “direita” e “esquerda” cada vez mais distantes de um diálogo conjunto.

“Direita” e “Esquerda” são conceitos precários

Uma pesquisa rápida e simples na Wikipedia sobre o espectro político direita-esquerda nos traz a seguinte frase: “Há um consenso geral de que a esquerda inclui progressistas, sociais-liberais, ambientalistas, social-democratas socialistas, democrático-socialistas, libertários socialistas, secularistas, comunistas e anarquistas, enquanto a direita inclui capitalistas, neoliberais, econômico-libertários, conservadores, reacionários, neoconservadores, anarcocapitalistas, monarquistas, teocratas (incluindo parte dos governos islâmicos), nacionalistas, fascistas, e nazistas.”

Perceba que um ambientalista é tanto de esquerda quanto um anarquista. Agora faça um exercício de imaginação e visualize uma proteção à natureza sem uma estrutura governamental; do outro lado, veja que libertários (livre mercado) estão sob o mesmo espectro de monarquistas e teocratas, novamente imagine uma teocracia islã onde o comércio de pornografia é aceito.

Quando partimos para o cenário específico brasileiro tudo se confunde ainda mais, temos uma “esquerda” capitalista e uma “direita” intervencionista.

A dissociação dos conceitos acaba gerando termos como “extrema esquerda”, “extrema direita”, numa tentativa de adequar e classificar melhor alguns expoentes de cada lado.

A rivalidade, porém, não é semântica ou principiológica, tampouco poderíamos falar em “oposição” e “situação”, já que existe uma enorme migração entre partidos e grupos inteiros como o PMDB transitam com facilidade entre “oposição” e “situação“.

Cria-se, no imaginário digital, a noção de que o espectro político é bicolor. Ou se é “coxinha”, ou se é “petralha”, negando-se a realidade caleidoscópica que se apresenta no dia-a-dia.

Uma pausa pra Jesus entrar na dança

Da presidência da República ao bar da esquina, uma coisa parece ser pior do que assumir um lado nessa briga: não assumir nenhum, pois automaticamente o indivíduo transmuta-se na sub-espécie “enrustido”. E é fugindo dessa pecha que muitos líderes cristãos se prontificaram a deixar claro pra que lado suas “ovelhas” deveriam ir.

A expressão “Teologia Política” passou a fazer algum sentido e do mesmo modo que “4 + Cachorro = Casa”, passamos a ter líderes ditando que cristão “de verdade” anda à direita ou à esquerda.

Aqui não cabe elencar um sem número de versículos e artigos teológicos, fazer isso é entrar na dança dos tróllogos. Basta apenas lembrar que quando questionado sobre o pagamento de impostos, Jesus foi claro ao dizer: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22:21).

César, imperador de Roma. Cristo veio ao mundo e viveu subordinado a um governo anti-democrático e imperialista.

Como Jesus pode ser de “esquerda” e não ter questionado o governo ou empoderado os movimentos sociais?

Como Jesus pode ser de “direita” e ordenado uma submissão às taxas governamentais, sem zelo pela economia e livre-iniciativa?

Traçar um perfil político para Jesus é desonestidade intelectual em proveito próprio. Portanto, sabendo que o Reino de Jesus não é deste mundo, o cristão pode ficar livre para endossar o viés político que achar mais interessante.

Um aperto de mãos só funciona com a Direita e a Esquerda

Tapar um dos olhos para não enxergar o que o adversário propõe é adotar uma visão “caolha” e, assim sendo, sem a profundidade necessária para examinar o que nos cerca. Um olhar rápido (e um tanto quanto superficial) sobre a “direita” e a “esquerda” já é suficiente para mostrar que ambas não se sustentam sozinhas:

Muitos “de direita” – justamente cansados com a ineficiência tributária do Estado – carregam o estandarte do liberalismo econômico em seus discursos. Propagam a ideia de que o mercado se auto-regula e que o governo apenas atrapalha o desenvolvimento comercial – e social por consequência.

Porém, o “livre-mercado” produziu aberrações como a Revolução Industrial, forjada com o sangue de mulheres e crianças que trabalharam em regime de semi-escravidão.

A jornada de trabalho atual, garantida na Constituição e que prevê uma jornada de 8 horas por dia, remonta aos idos de 1817, quando o revolucionário e socialista Robert Owen elaborou a proposta: 8 horas para trabalhar, 8 horas para dormir, 8 horas para descansar – como forma de humanizar as relações de emprego.

Temos, então: avanços trabalhistas; o Sistema Único de Saúde (SUS); cotas em universidades para alunos de escolas públicas e outras intervenções estatais que são necessárias para que a sociedade não entre em colapso – esse diagnóstico, inclusive, não é de um intelectual de esquerda, mas do bilionário e capitalista Nick Hanauer – (clique aqui e assista sua palestra do TED Talks).

Os “de esquerda, por sua vez, possuem uma tendência quixotesca para enxergar adversários na base do seu próprio sustento.

A megalomania estatal é desastrosa e possui exemplos já clássicos de derrota, como a antiga URSS e Cuba – um vídeo do canal Vox (clique aqui) mostra como o simples acesso a internet precisa de toda uma operação clandestina para que a maior parte da população cubana possa ter contato com o mundo.

A mesma livre-iniciativa que não pode ser endeusada pelos “de direita também não deve ser sufocada com um excesso de controle burocrático, tributário e estatal de modo geral. A mesma CLT que protege os empregados da fome corporativista, pode ser cruel e implacável para o pequeno e médio empresário.

Um sistema onde 48% das empresas fecham as portas após 3 anos de funcionamento não pode ser considerado sadio para o crescimento econômico. O excesso de ingerência estatal na economia e relações privadas mina as liberdades e acaba, ao final, por matar a pluralidade de ideias.

Considerações finais

Em resumo, não há respaldo nos Evangelhos para traçar o perfil político que o cristão deva seguir.

Tanto a “Direita” como a “Esquerda possuem aspectos de liberdade, compaixão, estruturação social e responsabilidade coletiva que devemos buscar.

Esse texto é uma apelo, talvez, ao centrismo, não como uma postura erroneamente associada com inércia ou “ficar em cima do muro”, mas na busca por equilíbrio e sensatez. Se estiver na “direita” pondere as ideias da “esquerda”, se a situação for oposta, também.

Como um bom andarilho na corda bamba, hora é preciso pender à direita, às vezes inclinarmos para a esquerda, pois andamos sobre algo mutável e que precisamos nos ajustar a cada balanço. Mas se viramos só para um lado, a queda é certa.


Em tempo: sempre bom lembrar que posição política não dá aval, tampouco isenta alguém de reconhecer e combater a corrupção e desvios de poder. Essa luta é direito e dever de todo cidadão, independente da visão adotada.

 

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