Era noite. Todos estavam em festa e refletiam em sorrisos, olhos e rostos incontida alegria. Olhando em volta, tornava-se difícil admitir que lhe faltavam as lentes que transparecem a verdade das pessoas. Mas, não, ele não queria julgar as alegrias, ainda que lhe parecesse que elas só tivessem rostos; ainda que – nelas – faltasse alma. Era fácil sorrir? Não para ele. Não com tantas lembranças de um passado de outrora povoando-lhe a mente, ao mesmo tempo que a castigavam por comporem uma valsa que, hoje, somava uma melodia surda de poeira de tempo.

Gastou toda a noite com os olhos nela. Verificava todas as nuances de suas reações, suas verdades ocultas, suas disformidades concretas.

 Gastou toda a noite com os olhos nela. Verificava todas as nuances de suas reações, suas verdades ocultas, suas disformidades concretas. Até nos paradoxos – lembrou – ela parecia-lhe bela. Observou que o sorriso sonoro de antes estava resumido a uma expressão morta, vestida em uma discrição tão robusta, que mal poderia ser captada pelos olhares mais atentos. Neste riso traçado de uma velhice que completava naquele dia quase oito décadas, ele parou junto ao tempo. “Deus, como ela era contagiante” – pensou. A sua vida ganhava-me o espírito todas as vezes que ela falava com o sorriso. Tão intensa! Tão nítida! Podia sentir respirá-la tamanha era a sua leveza. E, mesmo ausente, as suas marcas eram fortes e presentes o bastante para senti-la tocando-lhe os cabelos em um sopro de vento ou imaginá-la abraçando-lhe através da imagem no retrato.

Nesta observação que lhe pausou os minutos, nem percebeu que mantinha os olhos fechados. Estavam fitos nas lembranças, pensou baixinho. E sorriu leve, para lembrá-la outra vez. As vozes barulhentas chamaram-no para ficar de pé. As homenagens vão começar – diziam. Ele já não distinguia identidade naquelas vozes. Todo ele era ela. Mas, estranhamente, não o ela de agora: o ela de antes. Com este pensamento, assustou-se. Não mais a amava, agora, que a doença e os anos punham um frêmito sob a sua vida? As homenagens seguiram e ele calou-se em sua vergonha. Sentia faltar-lhe a força dos membros; sentia que lhe haviam furtado os sentimentos.

Em desespero, buscou-a com o olhar novamente. Enquanto os outros sentidos tentavam desviar-lhe a atenção com os sons das palmas; com aquelas mesmas mãos que se batiam tocando-o; com o cheiro da fumaça das velas, ele despiu-se de tudo pelos olhos. Os dela estavam baixos. Pareciam inertes, quase indiferentes. Onde ela estava? Teve vontade de vencer ofegante aquela pequena distância de uns aproximados dois metros de chão, para pôr entre as suas mãos o rosto dela e… procurá-la nela mesma. E, achando-a, poder beijar-lhe a testa enquanto as suas lágrimas beijavam-lhe o rosto dura e amargamente.

Aquela imaginação, em mistura miscível com o choro fácil, foi rompida pela voz dela. As suas mãos seguravam com alguma dificuldade a primeira fatia do seu bolo. “Para você”, sussurrou pequeno. A frase foi certa, como estava todo o seu rosto, concordante. Sob a lente das suas lágrimas, ele enxergou a alma faltosa na alegria daquelas pessoas, naquela noite de quinta-feira. Finalmente, ela estava ali… Com os cabelos mais ralos, os olhos verdes já ofuscados de um brilho ausente, a boca miúda tracejando o rosto cheio, ela estava ali. Percebeu, então, que fora ele quem não esteve. Passeando pelo passado de dezembros dourados, como estava posto naquela música de Chico que ela ouvia sempre de novo e de novo, perdeu-se um pouco ou até muito. Mas agora, sendo ela, ela e, sendo ele, ele, não quis perder mais nenhum traço de vida. E aconchegou-se na certeza de que o amor vivia também nas mudanças, nos rabiscos e nas metades, em uma linearidade incrivelmente perfeita.

“Para você”, sussurrou pequeno. A frase foi certa, como estava todo o seu rosto, concordante

Em um pulso de passo, aproximou-se dela, à medida que guardava o seu sorriso em seu abraço. E beijou-lhe a testa devagar, como antigamente. Em outro contexto e imersa em outra época, assistindo àquela cena e imaginando para ela os seus cenários e os seus tempos encobertos, a “narradora-observadora” ganhava um pouco mais de vida com a vida de seus avós. Tornava-se personagem. E, talvez, entendia um amor diferente, que fincava no eterno enquanto “faseava” pelos dias. Decerto, aquele beijo fora outro, fora desta época. Era grande demais para este mundo e curto demais para explicar tudo o que representava. Desistindo das análises, olhei para os frutos daquela história e sorri – foi uma vida inteira vivida junto ou junta, neste misturado de fases e lembranças que se confundiram no mesmo beijo na testa. Tão novo e tão mesmo. Como antigamente.


Foto: Holding Hands.
lunnaLunna Sarmento será médica em breve e até a data deste post não fazia ideia de quando seu texto iria ao ar.

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