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Este é o segundo ano de Comic Con Experience (CCXP) no Brasil e também é minha segunda vez por lá. O evento estreou ano passado com a grande expectativa de trazer o conceito de conferência de quadrinhos e cultura pop para o país, seguindo os padrões dos eventos de San Diego e Nova York. Não tenho o comparativo presencial, mas parece ter dado certo. Muito certo. O evento de 2014 foi um grande salto no lugar ao sol que o Brasil pode ter neste circuito – especialmente quando se trata da quadríade mais forte da indústria cultural dos nossos tempos: cinema, games, quadrinhos e televisão.

A formação básica da CCXP é o seu lado feira com stands de marcas deste universo, painéis e palestras com celebridades e nomes relevantes da indústria e o “beco dos artistas” (artists’ alley) onde criativos da área de quadrinhos e ilustração expõem seus trabalhos e vendem diretamente ao público, sem mediação.

“Se você está querendo saber onde está a maior fonte de criatividade e inspiração dentro de um evento como esse, corra para o beco dos artistas”

Não é difícil entender que a agenda mais forte do evento envolve trazer nomes de peso da cultura pop. Grandes celebridades do cinema e dos quadrinhos são os destaques, como a atriz e autora infantil Evangeline Lilly e o consagrado autor de quadrinhos Frank Miller. Para eles, há homenagens e entrevistas em auditório de 3 mil lugares e os famosos meet & greet pagos, onde os fãs mais assíduos trocam algumas dilmas por alguns segundos fazendo uma foto e conseguindo um autógrafo. Há versões gratuitas desse movimento e por toda CCXP você sempre vai encontrar uma fila. Elas podem ser para participar das ativações publicitárias de marcas como Warner, Sony e Fox, mas, no geral, estão ali para conseguir um autógrafo de um famoso criativo do mercado de quadrinhos.

As filas refletem uma paixão por trabalhos de grandes super heróis como Batman e Super-Homem, mas também o clássico desejo do ser humano de admirar, frente a frente, seus ídolos mais inalcançáveis. O evento acerta em cheio nessa lacuna aberta do público nacional, trazendo pre-estreias exclusivas de filmes, apresentações de novas séries de TV feitas diretamente pelos atores e outros lançamentos do gênero. Os milhares que passam pela CCXP esperam ansiosamente por esse momento.

BECO INDIE

Desde do ano passado, contudo, é exatamente outro movimento que mais me chama atenção dentro da feira. Apesar de obviamente ser parte de uma rotina que incentiva novos produtores, o Beco dos Artistas é uma espécie de irmão mais rebelde da programação.

Por lá, estão espalhados mais de 260 artistas em mais de 160 mesas. Em diferentes níveis de visibilidade, ilustradores e autores de quadrinhos de todo país colocam a cara na rua e conversam diretamente com seus fãs ou, muito provavelmente, com novos leitores. E se você está querendo saber onde está a maior fonte de criatividade e inspiração dentro de um evento como esse, corra para o beco.

Ir até uma Urban Arts e comprar uma cópia de um artista tem seu valor simbólico, mas poucas coisas são tão saborosas para o admirador de uma grande ilustração como comprar diretamente de quem fez e ouvir a história por trás daquilo.

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Camilo Solano (foto: Rayssa Soares)

Camilo Solano (foto acima), designer do interior de São Paulo e agora residente na capital paulista, é um desses nomes que tive a oportunidade de conhecer ainda em 2014. Ano passado, eu e minha esposa chegamos tímidos à sua mesa por conta de um cartaz sensacional que nos chamou atenção por fazer um mashup entre Tintin e Hora da Aventura. Levamos pra casa o poster e a ótima HQ Captar, assinada por Solano em parceria com Thobias Daneluz.

capa_desenganoPassando pela mesa de Solano em 2015, nesta quinta-feira, precisava parar e pergunta-lo qual tinha sido o maior desafio de fazer Desengano, sua nova história impressa. Publicada de forma independente, a HQ tem nada menos que a assinatura de Robert Crumb no prefácio.

“Quadrinho, no geral, é uma coisa muito difícil de produzir. É algo que leva muito tempo e é uma coisa solitária”, comentou sobre seu novo trabalho. “Na publicação independente a gente acaba fazendo tudo. A capa, diagramação, o corte e o que mais f*** é a grana”, enfatiza Solano, mencionando que este é seu primeiro trabalho colorido e o custo dobra nesses casos. Elogiado por um dos maiores nomes dos quadrinhos autorais do mundo (Crumb), Solano enfatiza que não há palavras sobre a alegria de alcançar este feito.

Na lógica das grandes filas pelos autógrafos das celebridades, festeja-se seus marcos e pouco quem eles realmente são. Na dinâmica do beco dos artistas, desprezar o que o artista passou para chegar ali soa até mal educado. Gastar tempo nos corredores daquela área do evento é não apenas se inspirar com novas e frutíferas produções artísticas, mas valorizar e incentivar (como claramente faz a própria CCXP), gente que está construindo seu trabalho a partir do contato direto neste e outros eventos.

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