O jornalista e autor Ricardo Alexandre. Foto: Daniel Lenco

O jornalista e autor Ricardo Alexandre. Foto: Daniel Lenco

Já tinha dado tempo de São Paulo não apenas acordar, como de atrasar a entrevista. É hábito da cidade. Às 7 da manhã, Ricardo Alexandre vem da sua Jundiaí para a capital, onde estou de passagem. A 40 minutos da pauliceia reside o autor de Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar (50 causos e memórias do rock brasileiro [1993-2008]), que se encontra comigo na 89 Rock, rádio que tem tudo a ver com as páginas do seu terceiro livro.

O papo será nos minutos que antecedem a gravação de 28 Anos Que Mudaram o Rock, programa que traz entrevistas embaladas por hits que foram importantes na história da rádio. No elevador, Alexandre trata de esclarecer que a “curadoria musical” vem do que os ouvintes mais pediram em cada época. Assim, indo até o 22º andar do prédio na Avenida Paulista, fica claro que vou conversar com alguém acompanha o pop há longa data, com entusiasmo e sem esconder a opinião sobre o que ouve.

Chegando ao seu terceiro livro, Ricardo Alexandre nos permite reparar que sua linha do tempo sempre foi de jornalista preocupado com o hoje, mas também com o passado que redefine o presente. Dias de Luta (2002), que conta a história do rock brasileiro de 1980, chegou à sua segunda edição em 2013 como o registro mais importante sobre esse momento da cultura pop brasileira.

Com Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal (2009), Alexandre ganhou o Prêmio Jabuti de melhor biografia em 2010. Agora, em dezembro recente, retornou às prateleiras de entrada com uma obra de tom pessoal, cheia de entusiasmo e análise crítica da época em que começou a carreira de jornalista cultural. Cheguei bem a tempo… é um compilado de 50 textos escritos no blog de Ricardo, no portal MSN.

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O livro passeia por entre a gênese, o êxodo e o apocalipse das jornadas musicais mais populares dos anos 90 e começo dos anos 2000. O cenário brasileiro que Ricardo retrata tem de tudo: bandas que nasceram ali (Skank, Raimunos, Chico Science & Nação Zumbi, Los Hermanos); que se reencontraram (Titãs, Capital Inicial, Ira!) ou morreram na praia, terminando sem uma jornada expressiva no mundo pop, caindo em certo limbo-undergroud. “Se a gente não tivesse vendido tantos discos e o tanto dinheiro não tivesse circulado entre as gravadoras, rádios e jornalistas, hoje a gente teria uma música muito mais sadia e um mercado mais sadio”, explica Ricardo sobre as marcas desta época.

Cheguei bem a tempo… é repleto de teses, bastidores e de certo tom de redenção. “O livro teve essa função, de discutir a mídia, a imprensa. A imprensa discute tudo, mas discute muito pouco a si própria”, comenta Ricardo, sobre textos onde “se explica”, como no polêmico caso da banda Catedral. Talvez a principal riqueza da obra seja justamente esse retrovisor bem honesto e passional, que nos permite relembrar ou conhecer história importante da cultura brasileira de forma despretensiosa.

A famosa manchete “A igreja é uma merda”, que rendeu uma crise para a banda Catedral, gravadoras e pastores raivosos, está no livro. Se a polêmica começou na rede, para Alexandre, se encerra nas páginas de sua obra. “Para minha surpresa, eles usaram de uma confissão minha como se fosse algo que eles haviam descoberto e que me incriminava”, comenta. O caso levou a banda a fazer um longo vídeo de 40 minutos contando sua versão dos fatos. Alexandre explica que o texto inicial junto à tréplica formam o resultado final que está no livro. “Havia tantas leviandades, insinuações e mentiras ali que pervertiam totalmente meu intuito original, de trazer a verdade à tona”, comenta sobre o vídeo [quote_right]”Eu não tenho dúvida de que o jeito que eu enxergo as coisas é filtrado por uma convicção espiritual inegociável”[/quote_right]

Está em seu blog, em seu livro e claro para os que o cercam: Ricardo Alexandre é cristão evangélico desde o fim dos anos 80. O amigo e jornalista André Forastieri, no prefácio da obra diz que essa história não poderia ser contada por outra pessoa, senão um homem de fé. Quando questionado sobre como essa cosmovisão afeta seu trabalho de jornalista da música pop, relembra C.S. Lewis e sua famosa tirada sobre o enxergar o mundo. “Eu acredito no Cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor”, diz o criador de Nárnia. “Então eu não tenho dúvida de que o jeito que eu enxergo as coisas é filtrado por uma convicção espiritual inegociável”, completa Ricardo.

A gravação do programa na 89 tem que começar e Ricardo gentilmente apresenta o *catavento aos colegas da rádio. “Fico em dúvida se as pessoas realmente estão entendendo o que vocês estão fazendo”, dizia ele um pouco mais cedo. Certo de que *catavento faz coro, com guitarras distorcidas, peguei o metrô na Av. Paulista e poderia andar cantarolando trecho de canção de um dos discos citados por Ricardo Alexandre em seu livro: “Aponta pra fé e rema”.


Ricardo Alexandre falou ao *catavento sobre as buscas desta geração do rock, seu jeito de ver o mundo e o que analisou, bem como sua fé cristã e até sobre música gospel.  Clique no link abaixo e confira a entrevista completa neste especial do *catavento.

Ricardo Alexandre: “nunca me senti atraído por essa estética artística chamada gospel no Brasil”


Lançamento beneficente nesta quinta, em São Paulo:

Lançamento do livro “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar”, com toda renda revertida para a Casa de Apoio (Vinheado-SP), que cuida de crianças em situação de risco:

São Paulo – Dia 13 de fevereiro, às 19h, Na Fnac Pinheiros (Praça Omaguás, 34). Na Galeria (3º andar)
Pocket show com a banda The Charts.

Rio de Janeiro – Dia 20 de fevereiro, às 18h30. Na Livraria Cultura Cine Vitória (Rua Senador Dantas,
45, Cinelândia). Debate e pocket show com o grupo Piu-piu & Sua Banda.


ricardo


Ricardo Oliveira
é jornalista, mestre em comunicação, nerd, blogueiro no Diversitá e megalomaníaco por produção de conteúdo. Faz parte dos projetos musicais Mais Que Apenas Som e Message in a Bottle, tenta filmar seu primeiro curta de ficção e nas “horas vagas” edita o *catavento.